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Pasolini: corpo contra consumo, corpo consumido*

por José Guilherme Pereira Leite

* Pela leitura atenta, e pelos consequentes comentários, o autor agradece a Guilherme Wisnik e Joana Barossi. Por parte importante da bibliografia consultada, agradece a José Fernando Peixoto de Azevedo.

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”1˟ 1 “Dove l’acqua di Tevere si insala”, verso de Dante Alighieri pertencente à Divina Comédia, aludindo à foz do rio Tibre, que corta a cidade de Roma e deságua em Óstia no local em que foi morto Pier Paolo Pasolini [tradução por José Guilherme Pereira Leite]., nos arredores de Roma:

“Fica, sobretudo, pressuposto que uma correta reconstrução das modalidades com as quais foi verificado tal evento lesivo [a surra recebida por Pasolini] não pode prescindir de um exame atento dos seguintes elementos: 1) as fotografias tiradas no local antes da remoção do cadáver, para um estudo seja da posição do corpo em seu conjunto, em cada parte (cabeça, membros superiores, tronco, membros inferiores) e em relação ao lugar, seja da posição das roupas ainda vestidas pela vítima, seja das lesões corporais visíveis, seja também dos traços de pneus em todo o percurso até o cadáver; 2) as lesões cutâneas, subcutâneas, ósseas e das vísceras endo-toráxicas (coração) e endo-abdominais (fígado); 3) as estruturas metálicas do automóvel. Resulta da relação perital – também por explícita admissão dos peritos, que invocam a extrema dificuldade de uma reconstituição particularizada – que o seu ‘convencimento’ sobre a dinâmica desse momento lesivo tem origem apenas na constatação de alguns elementos anatômico-patológicos: escassez e não uniformidade das fraturas costais, ruptura apenas do coração e não destruição do pericárdio, ausência de lesões cutâneas correspondentes ao desenho dos pneus. Estão ausentes, pelo contrário, na reconstituição perital, quaisquer referências à ruptura do fígado, às características das lesões cutâneas singulares e, sobretudo, à disposição de cada conjunto lesivo examinado singular e conjuntamente com todos os outros. Está, além disso, ausente um confronto com as fotografias tiradas do corpo de Pasolini antes da remoção e dos lugares circunstantes ao próprio cadáver”2˟ 2 “Perizia medico-legale sul corpo di Pasolini – Professor Faustino Durante – Note di parte alla relazione peritale d'ufficio” [trecho traduzido por José Guilherme Pereira Leite, disponível em http://www.pierpaolopasolini.eu/processi_pelosi_periziamedicolegale.htm, consultado em dezembro de 2015.].

Na sequência dessas considerações iniciais, Faustino Durante, o legista encarregado, completava a descrição do tal corpo, no mesmo documento:

“Presença de material ferroso na camisa regata, na cabeça, no colo, nos ombros, nos membros superiores (…). Presença de duas largas e muito similares escoriações equimóticas (…) nas regiões frontais laterais (…). Equimose escoriada na região zigomática e masseterina esquerda (…). Fratura em dois pontos do ramo horizontal esquerdo da mandíbula e luxação da articulação têmpuro-mandibular esquerda (…). A pirâmide nasal resulta achatada da esquerda para a direita (…). Lesão transversal (…) do pavilhão auricular direito (…). Afetamento da região parieto-ocipital direita (…). Vasta lesão situada superior e posteriormente ao pavilhão auricular esquerdo. (…) O pavilhão está ‘amplamente arrancado em sua base’ (…). Tumefação da região lateral-cervical esquerda com escoriações seriadas prevalentemente transversais (…). Numerosas escoriações nas regiões posteriores do ombro esquerdo, na região dorsal em posição ‘transversal’ ou ‘oblíqua’ (…). Escoriações transversais na base dos hemitóraxes, anteriormente, e do abdómen (…) Escoriações em correspondência com a espinha ilíaca ântero-superior esquerda. Tal zona é equimótica. (…) Conjunto equimótico no dorso da mão esquerda com fratura de algumas falanges e lesão de corte no primeiro dedo (…). Fratura do externo ao nível do III espaço; fratura da IV e V costela direita ao longo da linha hemiclavicular, fratura da VII e VIII costela direita ao longo da linha axilar posterior; à esquerda, fratura da VI e VII costela em dois pontos; na linha hemiclavicular e na linha axilar anterior, fratura da VIII e da IX costela na linha axilar anterior. No total, 10 fraturas de costelas (…). Lacerações capsulares do fígado com 15 e 7 cm sobre a superfície ântero-lateral do lobo direito e sobre a superfície do lobo esquerdo (…)”3˟ 3 Idem [trechos selecionados e traduzidos por José Guilherme Pereira Leite]..

Feitas as contas e ponderações que se seguem à descrição, encerra-se o laudo de Durante com as seguintes especulações:

“Para concluir, o exame aprofundado de todos os dados objetivos (investigação da cena, interrogatórios de Pelosi, achados, bastões, mesa, roupas, lesões de Pasolini) desmente de um lado a narrativa de Pelosi sobre a dinâmica de toda a agressão e, de outro, induz a avançar com fundamento na hipótese de que Pasolini tenha sido vítima da agressão de mais pessoas”4˟ 4 Idem [trecho traduzido por José Guilherme Pereira Leite]. Não posso neste espaço me estender a respeito: o leitor deve ter entretanto em mente que, sob certos aspectos, o corpo supliciado de Pasolini e a sua descrição forense evocam o “desmembramento” do camponês francês Robert François Damiens (1715-1757) celebrizado pelo filósofo Michel Foucault, que parte de sua descrição em seu clássico Vigiar e Punir, publicado em fevereiro de 1975. Uma análise maior exigiria avançar sobre as relações curiosas entre ambas as violações corporais, lembrando incontornavelmente o ensaio seminal de Michel Lahud a respeito de Pasolini, ensaio no qual os interesses de ambos (Pasolini e Foucault) pelo corpo, pela violência e pela sexualidade são explorados com grande brilho. Para a análise foucaultiana, ver: Foucault, Michel. “Surveiller et punir”. Paris: Gallimard, 1975. Para Lahud, ver: Lahud, Michel. A vida clara. São Paulo: Companhia das Letras, 1993..

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Pier Paolo Pasolini foi morto no Dia dos Mortos5˟ 5 O 2 de novembro é um festivo consagrado aos mortos não apenas no Brasil mas em diversos países de predomínio religioso católico, como é o caso da Itália., mesmo dia no qual, anos antes, nascera o colega de ofício cinematográfico Luchino Visconti [1906-1976]. Sobre seu nascimento, Visconti dissera uma vez: “Nasci no Dia dos Mortos, primeira manifestação do meu caráter contraditório”6˟ 6 a boutade de Luchino Visconti é citada pelo crítico Alessandro Bencivenni em sua monografia sobre o cineasta. Cf. Bencivenni, Alessandro. “Luchino Visconti”. Milano: il Castoro, 1995.. Já morrer em um tal feriado não parece contraditório, sobretudo para alguém como Pasolini: a data e as circunstâncias de sua morte têm ar de reiteração e literalidade extrema, morbidamente compatíveis com a vida dedicada de um lado aos mistérios do símbolo e do signo, consagrada de outro à condenação veemente da violência. Conforme notou Gian Carlo Ferretti, ainda no calor da hora, o assassinato (ou linchamento) do artista tinha algo da obra do próprio, isto é, apontava uma forte convergência – igualmente mórbida, infelizmente – entre o desfecho de uma vida e as denúncias que a marcaram, quase a ponto de uma irrealidade ficcional. Diz ele: “Pasolini morreu vítima de um episódio daquele tipo de violência, daquela degeneração horrenda da moderna sociedade capitalista que tinha sido o centro de muitos recentes ‘escritos piratas’ seus. E morreu no cenário daquela periferia romana que tinha sido protagonista, alegre e trágica, de tantas das suas obras literárias e cinematográficas, e que ele havia visto dolorosamente transformar-se, sob o impulso da especulação imobiliária e do consumismo”7˟ 7 Ferretti, Gian Carlo. “O poeta entre natureza e ideologia”. in: “Diálogo com Pasolini”. São Paulo: Nova Stella, 1986..

Esse quê de ficção e as fortes relações entre a obra de PPP e as circunstâncias de sua morte foram tratados por diversos de seus críticos. Federico Zeri, por exemplo, aproximou Pasolini do pintor Caravaggio (1571-1610). Nico Naldini e Marco Belpolitti acreditam que a vida no basfond não era simplesmente um “pequeno vício” do escritor, mas a experiência direta da qual extraía o material pleno de sua poética8˟ 8 Para aprofundamentos, ver: Nico Naldini. “Breve vita di Pasolini”. Milano: Guanda, 2009. Ver também: Belpoliti, Marco. “Il corpo insepolto di Pasolini” [disponível em http://www.nazioneindiana.com/2010/04/01/il-corpo-insepolto-di-pasolini; consultado em dezembro de 2015]. Ver ainda: Sica, Gabriella. “L’artista e la croce – Caravaggio e Pasolini”. in: Sica, Gabriella. “Sia dato credito all’invisibile – prose e saggi”. Venezia: Marsilio, 2000.. Tal é também a opinião de Cesare Garboli, para quem Pasolini e Caravaggio – nascidos no Norte da Itália – encontraram em Roma a oportunidade de fricção urbana com uma cultura popular autêntica, malgrado violenta, convertida por ambos em assunto permanente. Segundo Garboli, o interesse de Pasolini pela obra de Caravaggio é devido mormente a Roberto Longhi, de quem foi aluno9˟ 9 cf. Garboli, Cesare. “Ricordo di Longhi”. in: rivista “Nuovi Argomenti”, aprile-giugno 1970..

A “degeneração horrenda” a qual alude Ferretti foi descrita por PPP em seus textos de ocasião, trabalhada igualmente em alguns de seus filmes. E de que se tratava? Tratava-se sobretudo de um novo padrão de vida, hiper-materialista e violento, descrito e pensado pelo poeta em linha com as reflexões sociológicas que lhe eram contemporâneas e identificavam a formação da chamada “sociedade moderna do consumo”, consolidada primeiramente nos Estados Unidos da América e na Europa, nas duas primeira décadas posteriores à Segunda Grande Guerra Mundial, isto é, os anos 50 e 60 do século passado.

Comizi d'Amore, 1963 Pasolini jamais escondeu seu encanto pelas sociedades e culturas tradicionais – sobretudo se ligadas ao mundo mágico rural e aos ritos da terra –, ainda que as tenha condenado, muitas vezes, por seus modos conservadores e, acima de tudo, sua sexualidade obtusa e entabulada10˟ 10 ver a esse respeito o sublime “Comizi d’amore”, dirigido por Pier Paolo Pasolini em 1965. . Não lhe pareciam culturas perfeitas – nem do ponto de vista da igualdade, muito menos da liberdade –, mas eram-lhe caras como sociedades nas quais transparencia (sempre segundo ele) uma espécie de consciência aguda do viver e do habitar, uma relação mais verdadeira (mais dramática) entre indivíduo e terra, corpo e planeta (numa linha emotiva bastante Marcuseana, ou Heideggeriana de esquerda, se quisermos). Sociedades de feição telúrica ou “demeteriana”11˟ 11 cf. Pasolini, Pier Paolo. “As últimas palavras do herege – entrevistas com Jean Duflot”. São Paulo: Brasiliense, 1983.. Sociedades em que o uso do corpo estava entregue aos desígnios de uma ordem milenar, quase heteronômica, sociedades em que a soberania do desejo jamais pode formar-se plenamente, em que nunca se conquistou o direito à separação entre o prazer sexual e a procriação (“amor não procriante”)12˟ 12 cf. Pasolini, Pier Paolo. “Sacer”. in:“Scritti corsari”. Milano: Garzanti, 1996.. Sociedades nas quais, entretanto, podia o poeta enxergar modos outros de organização da vida e certa graciosidade que lhe parecia remédio possível àquilo que se lhe afigurava como perda relevante de substância nas relações entre trabalho e vida, naquele período histórico que se inaugurava.

Para ele, como para muitos outros, na Europa e mundo afora, a reconstrução do pós-Guerra foi vivida como fenômeno de dupla significação: sentida em seus potenciais com enorme interesse criativo de um lado e, de outro, como processo avassalador de “classe-medização”, homogeneização ou pausterização cultural, em outras palavras, como normalização e universalização de certas formas de vida, apagamento antropológico das localidades e das particularidades regionais em prol de uma suposta cultura internacionalista, que jamais o convenceu.13˟ 13 A desconfiança, no caso, está em linha direta com às críticas de Antonio Gramsci àquilo que este julgava ser o “falso cosmopolitismo” italiano, endêmico, típico de uma sociedade periférica. Gramsci, como se sabe, foi referência intelectual fundamental para Pasolini. Cf. Gramsci, Antonio. “Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura”. Roma: Riuniti, 1996. “O tipo de pessoa corrupções, impurezas… Ao passo que um analfabeto, alguém que tenha feito o primeiro fundamental tem sempre uma certa graça que depois se perde por meio da de que mais gosto são as pessoas que talvez não tenham feito nem sequer a quarta série fundamental… Isto é, as pessoas absolutamente simples… Mas não vejam retórica nesta minha declaração… Não o digo por retórica… Digo porque a cultura pequeno-burguesa – ao menos na minha nação [Itália] mas talvez também na França e na Espanha – é algo que traz sempre cultura… Depois se recupera em um altíssimo grau de cultura… Mas a cultura média é sempre corruptora…”14˟ 14 Pasolini o afirma durante entrevista à televisão italiana, no programa “Terza B facciamo l’appello”, dirigido pelo jornalista Enzo Biagi “Il tipo di persona che amo di gran nulla di più sono le persone che possibilmente non abbiano fatto neanche la quarta elementare.. Cioè le persone assolutamente semplice… Ma non ci metta della retorica in questa mia affermazione… Non lo dico per retorica… Lo dico perchè la cultura piccolo borghese – al meno nella mia nazione ma forse anche in Francia e in Spagna – è qualcosa che porta sempre delle corruzione, delle impurezze… Mentre un’analfabeta, uno che abbia fatto il primo anno elementare ha sempre una certa grazia che puoi va perduta attraverso la cultura… Poi si ritrova a un altissimo grado di cultura… Ma la cultura media è sempre corrutrice…”.

Essas preocupações de Pasolini são bastante conhecidas e encontram-se explícitas em dois de seus mais famosos textos de ocasião, recolhidos no volume dos “Escritos Corsários”, aos quais aludia o citado Ferretti: “Contra os cabelos compridos” (jornal Corriere della Sera, 7 de janeiro de 1973) e “Estudo sobre a revolução antropológica na Itália” (jornal Corriere della Sera, 10 de junho de 1974)15˟ 15 cf. os originais “Contro i capelli lunghi” (Corriere della Sera, 7 gennaio 1973) e “Studio sulla rivoluzione antropologica in Italia (Corriere della Sera, 10 giugno 1974). in: Pasolini, “Scritti corsari”, op. cit... E sumista”, cujos hábitos essenciais teriam sido a captura dos mais jovens por manias de consumo, por uma cultura do efêmero, do superficial, do violento e do esgotamento, uma espécie de “obsolescência programada do vivido” (termo que arrisco introduzir aqui para dialogar com os recentes interesses do colega Guilherme Wisnik sobre a “obsolescência programada dos objetos”16˟ 16 cf. Wisnik, Guilherme. “Mundo, obsolescência programada”, in Novaes, Adauto (org.). Mutações: fontes passionais da violência. São Paulo: Edições Sesc, 2015.).

Pasolini falava de uma passagem empírica e etnograficamente italiana, porém prototípica, do mundo ocidental. Passagem sobre a qual é digno chamar a atenção do leitor brasileiro, neste momento: a mutação social descrita na ensaística pasoliniana dos anos 1960 e 70 transborda descrições e elementos estruturalmente semelhantes às síndromes da inclusão pelo consumo que caracterizam a sociedade brasileira atual, e porta consigo, inclusive, o mesmo sentimento de ambiguidade que faz oscilar o debate atual no Brasil, nossas ênfases ora positivas, ora negativas a respeito das contradições que vivemos. Ainda nas palavras de Ferretti: “Em todo o seu discurso sobre o advento de um monstruoso universo do Poder e do consumo, há fortes instâncias regressivas e nostálgicas, que o impediam de colher os elementos de Progresso interiores a um Desenvolvimento profundamente contraditório; havia, em especial, uma desesperada recusa do presente e uma prepotente volta às suas mitologias originadas da inocência e da pureza. Mas havia também uma aguda e sofrida sensibilidade pelos vícios e perigos ligados à fase atual de capitalismo maduro e às suas novas formas de fascismo; e, em geral, uma exigência sempre presente de medir-se diretamente com os problemas sociais e morais do seu tempo, de agitar em torno deles o debate, de fazer escândalo17˟ 17 Ferretti, Gian Carlo, op. cit...

Com isso se registre claramente que o elogio exagerado e um tanto naïf de uma suposta autenticidade encontrada nos dois pólos da tríade social clássica (abaixo o despossuído completo e acima o aristocrata abastecido, também este desconectado dos ímpetos grosseiros da acumulação objetual) é por certo o “calcanhar de Aquiles” pasoliniano, apontado como tal por diversos de seus comentadores italianos de então (haja vista as considerações do próprio Ferretti, exemplares a respeito disso). Esse encanto, no entanto, é também, ao mesmo tempo, o centro dinâmico de sua elaboração poética mais viva ou relevante, e o motivo (motif) de alguns de seus mais felizes acertos cinematográficos ou literários (dou como exemplo “O Evangelho segundo São Mateus” O Evangelho segundo São Mateus, 1964 , “As flores das mil e uma noites” ou ainda as celebradas experimentações de seu “Ragazzi di vita”).

Outro aspecto notável daquela mesma “degeneração horrenda” dizia respeito, para o próprio Pasolini, à degradação ambiental avassaladora que resultou da reconstrução europeia, de seus “Trinta Gloriosos”, chocante e inaceitável sobretudo para alguém que – repetindo – pretendia extrair modelos de organização e trabalho tomados justamente às sociedades tradicionais, ligadas ao cultivo e ao culto da terra, ligadas a uma cultura das mãos e do “corpo-a-corpo”. Dos mesmos “Escritos Corsários” são célebres duas passagens: numa delas, o poeta diz viver em uma era na qual “procriar” havia se tornado “um delito ecológico”18˟ 18 cf. Pasolini, Pier Paolo. “Sacer”, op. cit... Em outra, lamentava o desaparecimento dos vagalumes, extintos da campagna italiana pela poluição industrial crescente, símbolos líricos e bucólicos de um idílio terminado (imaginado, imaginativo, fantasioso), correspondendo esse desaparecimento a uma corrosão das utopias políticas que lhe seria análoga19˟ 19 cf. Pasolini, Pier Paolo. “L’articolo delle lucciole”. in: Pasolini, “Scritti corsari”, op. cit... La forma della città, 1974 .

Perdoando-se ou não o “regressismo-saudosismo” pasoliniano – obviamente extemporâneo para alguns –, é preciso reconhecer, de qualquer modo, que a crítica ao consumismo acirra-se em seu pensamento na passagem dos anos 60 aos 70, e ganha contornos radicais, relevantes para compreender-se o protagonismo do corpo na cena da sua poética. Em outro texto dos mesmos “Escritos Corsários”, PPP chega a dizer: “O consumismo consiste, de fato, em um verdadeiro e próprio cataclisma antropológico: eu vivo existencialmente tal cataclisma que, pelo menos por ora, é pura degradação: o vivo nos meus dias, nas formas da minha existência, no meu corpo… […] É desta experiência existencial, direta, concreta, dramática, corpórea, que nascem como conclusão todos os meus discursos ideológicos. Como transformação (por ora degradação) antropológica da ‘gente’, para mim o consumismo é uma tragédia que se manifesta como desilusão, rávia, taedium vitae, apatia e, enfim, como revolta idealista, como recusa do status quo20˟ 20 cf. Pasolini, Pier Paolo. “Sacer”, op. cit.. “Il consumismo consiste infatti in un vero e proprio cataclisma antropologico: e io vivo, esistenzialmente, tale cataclisma che, almeno per ora, è pura degradazione: lo vivo nei miei giorni, nelle forme della mia esistenza, nel mio corpo. […] È da questa esperienza, esistenziale, diretta, concreta, drammatica, corporea, che nascono in conclusione tutti i miei discorsi ideologici. In quanto trasformazione (per ora degradazione), antropologica della ‘gente’, per me il consumismo è una tragedia, che si manifesta come delusione, rabbia, taedium vitae, accidia e, infine, como rivolta idealistica, come rifiuto dello status quo”. [tradução por José Guilherme Pereira Leite]. Era sua resposta ao amigo Alberto Moravia, com quem entrava ali em polêmica intensa sobre a legislação italiana ao redor do direito ao aborto.

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Fala de PPP a respeito do conformismo, 1971 discurso de Alberto Moravia nos funerais de PPP Depoimento de Sergio Citti O assassinato de Pier Paolo Pasolini segue sendo um dos mais profundos traumas da cultura italiana moderna e contemporânea, conforme se podia prever já nos dias imediatamente seguintes ao fato. Lembrar esse assassinato é conveniente num momento em que o Brasil registra casos recorrentes de hostilidade a intelectuais e militantes comprometidos com um pensamento considerado “à esquerda” , e parece renovar suas bodas com a violência como forma de resolução de conflitos políticos e ideológicos. O corpo de Pasolini é o cadáver símbolo das tensões imensuráveis que caracterizam as profundas transformações sociais do pós-Guerra e do pós-68, não apenas na Itália, mas em todo o mundo. É também o sinal de uma vida abreviada de maneira inaceitável, vivida no exercício contínuo do “pensar em público”, na defesa de uma doxa integral e livre .

Nos arredores do Idroscalo, em frente ao mar e muito próximo a um campo de futebol (paixão intensa do poeta), o corpo de PPP atravessou a madrugada daquele 2 de novembro entre casas simples e barracões precários, imersos em silêncio, até a chegada da polícia e o seu reconhecimento pelo ator Ninetto Davoli. Entre as tantas polêmicas que se arrastam até o hoje , o assassinato foi atribuído a Giuseppe Pelosi, um jovem com então 17 anos de idade, réu confesso. Logo após a prisão em flagrante, poucas horas depois do crime, Pelosi pediu aos policiais romanos que lhe restituíssem um objeto de grande estima para si, perdido na cena do crime ou na Alfa Romeo de Pasolini, em que havia fugido. Tratava-se de um anel que o mesmo Pelosi descreveu, em seu primeiro depoimento aos investigadores, assim: anel de ouro com uma pedra vermelha ao centro, ao lado da qual havia duas águias, em torno das quais se lia a inscrição “United States Army”21˟ 21 cf. “Interrogatorio dell'imputato Pino Pelosi – 2 novembre 1975” [disponível em http://www.pierpaolopasolini.eu/processi_pelosi_periziamedicolegale.htm, consultado em dezembro de 2015].

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego