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O problema da superfície - notas sobre o Novo Anhangabaú
por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo"1˟ 1 NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. p. 542., as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura. Para leitura do projeto, ver apresentação realizada em dezembro de 2015 com os documentos mais atualizados do projeto. Disponível em: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2015/12/20151201_anhangabau.pptx; algumas pranchas disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. Disponível em: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/requalificacao-do-anhangabau; e também ver exposição das premissas norteadoras da proposta no portal da SMDU. Disponível em: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/centro-dialogo-aberto/o-vale-do-anhangabau

Consistindo em uma requalificação urbana dos espaços públicos para pedestres do vale, as principais críticas ao projeto do Anhangabaú centram-se ou na inexistência de concurso para escolha dos autores2˟ 2 Ver reportagem “Estudo para Anhangabaú de Haddad é criticado”, publicada no Estado de São Paulo onde foram entrevistados o presidente do IAB-SP, José Armênio Brito Cruz, e a autora do projeto de paisagismo existente do Anhangabaú, Rosa Grena Kliass. Disponível em: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-para-anhangabau-de-haddad-e-criticado,1747270; e “Reforma do Anhangabaú é aposta de Haddad para recuperar centro”, publicado na Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1580036-anhangabau-e-aposta-para-recuperar-centro.shtml., ou na estreita relação entre interesses privados e o poder público para a sua viabilização3˟ 3 Ver a longa reportagem do projeto de investigação Arquitetura da Gentrificação que expõe cuidadosamente as relações estabelecidas entre o banco ITAÚ e Prefeitura para operação, procurando expor os vínculos entre poder público e iniciativa privada. DURAN, Sabrina. “Privatização da Rua: como o banco Itaú, com aval da prefeitura, pretende redefinir o uso do centro de SP”. A reportagem em síntese. Disponível em: http://privatizacaodarua.reporterbrasil.org.br.. Em ambas as linhas, a análise do projeto permanece em segundo plano, sendo que nele também se pode encontrar sintomas peculiares de um pensamento urbano sobre o centro da cidade.

Corte diagramático do Anhangabaú na transição do século XIX para o XX, com seu curso d’água já retificado mas ainda com propriedades próximas à várzea.

O vale cristaliza a história moderna da cidade de São Paulo: O vale é o lugar onde conflitos da cidade são justapostos, em que as intervenções de diferentes tempos históricos se encontram em sua geografia originária, o riacho do Anhangabaú era um dos delimitadores do triângulo histórico da cidade, e sua transposição marca a transformação da pequena vila em cidade. Posteriormente, o vale assume posição central no Plano de Avenida de Prestes Maia, sendo o nó do Sistema Y, cuja importância permanece até hoje nas dinâmicas de circulação e transporte da metrópole paulista4˟ 4 Para aprofundamento da história do Anhangabaú, ver: SIMÕES JÚNIOR, José Geraldo. Anhangabaú. História e urbanismo. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Senac São Paulo, 2004; TOLEDO, Benedito Lima. Prestes Maia e as Origens da Urbanismo Moderno em São Paulo. São Paulo, Empresa das Artes, 1996; e Hereñú, Pablo Emílio. Sentidos do Anhangabaú. Dissertação. São Paulo: FAU/USP, 2007.. O vale é o lugar onde conflitos absolutamente heterogêneos da cidade são justapostos, local em que as intervenções de diferentes tempos históricos se encontram.

Corte diagramático do Vale após a canalização do ribeirão Anhangabaú e da implantação do Plano de Avenida de Prestes Maia. Neste momento, quase todo seu domínio era ocupado com carros.

Por esta importância concreta e simbólica – e o subsequente potencial econômico do local –, a atual gestão da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano elegeu o vale do Anhangabaú para receber a principal intervenção do poder público no centro da cidade. O projeto, desenvolvido por uma junta de profissionais da prefeitura com consultoria do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, tem suas intenções e estratégias claramente definidas: 1. melhorar os acessos e fluxos, resgatando o eixo da avenida São João e das ruas Formosa e Anhangabaú; 2. tornar a escala do vale mais humana e menos monumental, com a criação de bulevares arborizados e pequenos comércios e quiosques junto às ruas perimetrais do conjunto; 3. conciliar o uso de grandes eventos com atividades cotidianas, com a especificação de pisos aplainados em todo o conjunto do vale, e com a utilização de diversos espelhos d’águas, cujo funcionamento determinará as áreas ocupáveis da maior parte do vale; 4. tornar ativas as fachadas do vale e de seus eixos de travessia.

Corte diagramático do projeto proposto pela atual gestão da prefeitura. As definições infra estruturais do projeto anterior são mantidas e a superfície da plataforma ganha nova organização funcional e programática com a definição de bulevares perimetrais e de uma esplanada central.

As estratégias mencionadas acima resultam o projeto traz como uma de suas principais imagens a tentativa de remontar a presença do antigo riacho hoje canalizado em uma esplanada central de 40 por 375 metros, com formas e limites legíveis, em contraposição ao desenho existente, assinado por Jorge Wilheim, Rosa Grena Kliass e Jamil Kfouri, característico por seus relevos e vegetações muitas vezes transversos ao vale. Como complemento à esplanada, espera-se alcançar uma utilização mais dinâmica do perímetro do vale e de seu entorno imediato por meio de eixos auxiliares na Rua Formosa e na Rua Anhangabaú, onde elementos comerciais (como quiosques) e mobiliário urbano são entendidos como componentes paisagísticos. Além destes aspectos relativos à forma, à função e ao programa, o projeto traz como uma de suas principais imagens a tentativa de remontar, através de diversos espelhos d’água, a presença do antigo riacho hoje canalizado entre túneis.

Corte diagramático do Vale após implantação da intervenção assinada por Jorge Wilheim, Rosa Grena Kliass e Jamil Kfouri. Com a implantação de túneis para fluxo viário, o projeto configura uma plataforma para pedestres entre o Viaduto do Chá e o Viaduto Santa Ifigênia.

Estas revisões críticas em relação ao atual vale do Anhangabaú, trazidas pelo corpo técnico da atual secretaria, apontam evidências de mudanças metodológicas para abordar problemas urbanísticos. Desmonta-se definitivamente a visão autônoma do projeto arquitetônico e urbano: dinâmicas econômicas, tendências culturais, preocupações psicológicas etc, procuram ser obtidas e reveladas no processo participativo, marcado por momentos de apresentações públicas, coleta de opiniões e entrevistas com transeuntes, sugestões em plataforma digitais, pesquisas em campo e workshops5˟ 5 Apesar do processo participativo gerido pela prefeitura ser reconhecido como importante e bem realizado por algum dos críticos do projeto, permanecem questionamentos sobre a ausência de fóruns onde as premissas mais gerais estivessem em discussão, como aponta texto recente da geógrafa Luanda Vannuchi, “Projeto para o Anhangabaú não deve ser prioridade”. Disponível em: https://observasp.wordpress.com/2016/01/12/projeto-para-o-anhangabau-nao-deve-ser-prioridade.

Este teor empírico do projeto conduz a proposta a eleger como questão central a programação e utilização da superfície do Anhangabaú, ou seja, sua dimensão mais sensível e imediata, em detrimento dos nós infraestruturais que o conformam. Neste ponto, o projeto de requalificação da atual prefeitura revela considerar a situação infraestrutural – o córrego canalizado entre largos túneis rodoviários – da atual configuração do vale como ponto de partida intocável, sem contestar a estrutura urbana de grande escala envoltória. Os avanços deste projeto de requalificação do Anhangabaú, expressos na ampliação dos componentes urbanísticos, resultam por outro lado num recuo do escopo disciplinar do projeto urbano, uma vez que a requalificação do vale não enfrenta a urgente revisão do tratamento hídrico do centro de São Paulo, nem a relação do vale com as vias rodoviárias que o compõem e também o oprimem enquanto espaço público. A tentativa de recompor a memória do antigo riacho – vivo e dinâmico – representado através dos espelhos d’água serve como expressão exemplar do descompasso entre aparência e essência do vale do Anhangabaú.

Não se trata de uma falha atribuível aos arquitetos. O projeto insere-se em um contexto demasiadamente intrincado, com diversos problemas que ultrapassam o escopo do vale do Anhangabaú e tocam algumas das grandes questões da cidade: como reconciliar a natureza de São Paulo com a infraestrutura construída e tornar efetivamente públicos os espaços vazios em uma metrópole cindida por opressões urbanísticas? O ímpeto de desenho promovido pela atual gestão é interessante e urgente, posto que as cidades precisam de arquitetura, mas ele não se sustentará sem uma visão ampla que considere, no tempo, uma profunda revisão de nossos mais enraizados pressupostos de planejamento.

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego