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Lotes que não existem

por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.

Lotes tão disformes quanto ínfimos, com preço de venda que dificilmente ultrapassava 75 dólares

Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações. Entre o leque de ofertas, o artista notou a existência de alguns lotes certamente esquisitos, restos entre as propriedades normais: triângulos minúsculos, retângulos de 70 centímetros por 50 metros, ou paralelepípedos na metade dos quarteirões, que dificilmente excediam o tamanho de uma cama de casal. Lotes tão disformes quanto ínfimos, e cujo preço de venda, após alguns lances, dificilmente ultrapassava 75 dólares.

Formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Cornell, Matta-Clark apaixonou-se de imediato pelos lotes e começou a comprar todas as peças possíveis, com o intuito de fazer uma obra de arte; essa que mais tarde seria conhecida como Propriedades Reais: Bens Fictícios. Na ideia inicial, a obra consistiria nos seguintes elementos: (I) a propriedade em si mesma, já que a escritura do lote seria transferida ao comprador da obra; (II) as fotos da área do lote, que formariam um mosaico ampliado em escala 1:1; e (III) uma lista de ervas daninhas que, sem direito de propriedade nenhum, tinham passado a habitar os lotes que naquele momento pertenciam a Gordon Matta-Clark e no futuro pertenceriam ao comprador da obra. Contudo, a peça nunca foi concluída. A papelada toda ficou armazenada em uma caixa, e os lotes, por falta de pagamento dos impostos, acabaram retornando ao Estado, que depois abriu mão de ofertar esse tipo de terreno.

Hoje, após ter sido resgatada a caixa, a obra consiste em 14 peças2˟ 2 O artista comprou 15 lotes, mas deu de presente um deles para seu amigo argentino Jaime Davidovich., cada uma com sua escritura, seu mapa e algumas fotografias tiradas pelo artista. E assim como as imagens jamais foram ampliadas na escala 1:1, também a lista de ervas daninhas nunca foi realizada.

Propriedades Reais: Bens Fictícios, série inconclusa e um dos trabalhos menos conhecidos de Gordon Matta-Clark, é um verdadeiro gabinete de curiosidades do planejamento urbano, um circo de bizarrices. Basta passar o olho sobre os mapas dos lotes, para quase instantaneamente se questionar: por que algum burocrata decidiu redigir uma escritura para semelhantes nesgas de cidade? Foi um simples erro, um procedimento administrativo automático ou uma artimanha de arrecadação de impostos?

se na papelada temos terrenos absurdos, no mundo real encontramos terrenos simplesmente inexistentes

Porém, esse rápido passar de olhos sobre o mapa acaba sendo um prelúdio à experiência de conhecer os lotes em si, pois, se na papelada temos terrenos absurdos, no mundo real encontramos terrenos simplesmente inexistentes. Não há sinal algum que dê conta da presença desses lotes no mundo físico, e isso não é um exagero: Jane Crawford, viúva de Matta-Clark, conta que o artista passou sobre o triângulo do lote 160 sem percebê-lo, indo fotografar a esquina do próximo quarteirão:

Em uma ocasião, percebemos que Gordon tinha fotografado o lugar errado. Ele pensou que tinha comprado um pedaço de calçada pela avenida de Long Island, quando na realidade adquiriu um pequeno triângulo de grama ao redor da esquina (Quarteirão 209, Lote 160). Também descobrimos que para ver muitos de seus lotes, tínhamos que ir às escondidas através de vários quintais, violar a propriedade privada. Em uma ocasião, fomos surpreendidos pelo dono de uma casa que perguntou o que fazíamos em seu quintal, e lhe dissemos que estávamos procurando um pedaço de propriedade, mostrando a escritura. Ele disse: “Oh, vocês devem ser da cidade, cada ano enviam alguém aqui pra comprovar e assegurar-se que não estamos construindo além da fronteira.3˟ 3 Em: Jeffrey Krastner, Sina Najafi e Frances Richard (ed.), Odd Lots, “Revisiting Gordon Matta-Clark Fake Estates”, Cabinet Books, Nova York, 2005, p. 53.

Quando li essas linhas pela primeira vez, pensei comigo mesma: “Impossível!, Não ver um lote que está no mapa? Matta-Clark estava pensando vai saber em quê; no final das contas: é um artista, não um teórico”. Mas tive de rever meus pensamentos quando fui, com meus mapas embaixo do braço, em 2013, visitar os mesmos lotes. O sol era espantoso, eu procurava segmentos cujas pistas só apareciam no papel. Na realidade não existia nada que desse conta dos lotes, dessas fronteiras, dessa partição, de haver uma propriedade privada entre uma casa e uma calçada, entre duas casas, ou ao lado de um jardim. Nada indicava a existência desses esdrúxulos pedaços de terra.

Para completar, um primo meu que mora em New Jersey e aceitou acompanhar-me, ria de mim e afirmava que se os mapas não fossem oficiais e eu não lhe tivesse mostrado um livro com as informações sobre os lotes, achar-me-ia uma demente. “Julia”, falou meu primo, “estamos procurando algo que não existe”.

Em outro dia, já sem meu primo, na visita do lote 146 do quarteirão 1107, encontrei o dono da casa em que o pedacinho de terra que pertencera a Gordon Matta-Clark estava inserido. O homem era cubano e estava lavando o seu carro. Comentei o motivo da minha visita, mostrei o mapa e a página do livro em que aparecia uma fotografia de sua calçada. Ele, que afirmou não saber da existência de lote algum, examinou meus documentos e deixou-me fotografar.

Tentei demarcar a área do lote 146, mas não consegui estabelecer seus limites. O terreno era tão pequeno, tão absurdo, que eu mesma duvidava estar no lugar certo. O morador cubano, que espiava minha atividade com reserva, finalmente se aproximou para falar: “Sabe como chamariam você na minha terra? Uma pessoa sem nada pra fazer, uma desocupada”, e agregou: “Se gosta tanto do lote, por que não leva ele? Eu te dou de presente!”. Nós dois rimos e, quando terminei a minha contemplação extática daquilo que parecia ser o lote, fui embora pensando em como levar esse pedaço de terra, esse punhado de metros quadrados. Apesar de todos os documentos, papéis e transações, o lote continuava ali, invisível e imperturbável.

Com o lote 148 – meu favorito, e sobre o qual farei uma descrição no final do texto –, aconteceu uma verdadeira catástrofe: nunca consegui fotografá-lo. Trata-se de uns dos lotes sem acesso, perdido na metade do quarteirão, de forma que para chegar nele segui os passos de Crawford: pulei cercas, invadi propriedades e, sem perceber, estava no quarteirão errado. Só me eximo da culpa lembrando que a quadra fica em um ponto do Queens em que três ruas paralelas têm o mesmo número: 53AV, 53RD e 53rd RD. Eu estava na rua 53rd DR, pensando estar na rua 53RD.

De qualquer forma, o curioso do assunto é que só percebi meu engano após várias semanas, quando realizei uma revisão dos mapas e das fotografias, contrapondo-os. Mas devo dizer que esse erro, devido à impossibilidade de saber se estava no lugar certo pela falta de fronteiras tangíveis, é extremamente interessante. Com efeito, é a chave da questão, pois os lotes mostram propriedades que existem no mundo da burocracia sem ter existência alguma no mundo real. É por isso que o Departamento de Finanças da Cidade de Nova York é o melhor lugar para se visitar a obra, pois é ele o verdadeiro espaço desses lotes. Lotes hegelianos que habitam o espírito do Estado, sem ter que descer ao mundo dos mortais. Lotes eternos. Não há terremoto que possa modificar sua área tão imaterial quanto abstrata.

Lotes através dos quais Gordon Matta-Clark assinala vários temas importantes para qualquer habitante do mundo capitalista – seja ele marxista ou não. Em primeiro lugar, a diferença entre bem e propriedade, entre valor de uso e valor de troca, entre terra e escritura. Revelando a questão de como a propriedade – a noção abstrata, aquela que não existe – vai incidir de tal forma sobre o mundo real e físico que termina por imperar sobre este. Com efeito, a verdadeira irracionalidade da norma abstrata termina por dividir o mundo real em pedaços tão minúsculos como aqueles em que hoje vemos cindidas as nossas cidades. Em segundo lugar, os lotes que Matta-Clark trabalha tornam perceptível uma inversão nos termos: a propriedade não dá conta do bem, mas cria-o, o que mostra um profundo paralelo com o capital financeiro que rege o mundo presente. O lote inexistente só é propriedade, sem ser necessário nada físico para confirmar a sua existência. Assim, a simples possessão já é suficiente para gerar valor, seja em forma de impostos, seja em forma de juros.

Em resumo, Propriedade Reais: Bens Fictícios expõe vários dos problemas de nossos tempos. Trata-se de uma obra-chave, cujo diálogo com os cortes arquitetônicos do artista, em outras obras, é direto. Se, na compra dos lotes, Matta-Clark assinala fronteiras que não existem, nos cortes de paredes e pisos, o artista transgride aquelas que existem mais claramente, sempre questionando os limites físicos e burocráticos da propriedade privada.

O lote 148, quarteirão 2406
Queens, Nova York

Quando comprei essas propriedades no leilão da cidade de Nova York, a descrição que mais me fascinou foi ‘inacessível’.
Gordon Matta-Clark

O lote 148 é um trapezoide de aproximadamente quatro por cinco pés (dois por um e cinquenta metros) e é, ele próprio, um desafio à razão. Porém, comparando os mapas de 1915, 1933 e 1965 é possível estabelecer as causas de sua existência.

Como é possível ver no mapa, até 1915, a área do lote 148 pertencia ao lote 48, que nesse momento era um terreno de medidas irregulares: no fundo 39,54 pés, na frente 32,96 pés, um lado com 100, 22 pés, e outro com 100 pés. Segundo o mapa, em 1933, o lote vizinho à leste, isto é, o lote número 50, redefiniu sua fronteira, invadindo em 4,08 pés a área do lote 48, para, em 1936, estender-se ainda mais, avançando mais cinco pés.

Essas modificações são curiosas, pois ainda que o lote 48 perdesse terreno, tais invasões o levaram a sofrer uma transformação milagrosa: de trapézio irregular passou a ser um retângulo perfeito. Área possível de ser descrita da seguinte forma: 100 por 30 pés. Em resumo, a extensão do lote nº 50 sobre o 48 foi modificando esse último até torná-lo regular: cifras inteiras, ângulos retos.

Nosso trapezoide é a consequência da primeira perda de território do lote 48 em 1933. É, por isso que sua base mede 4,08 pés, enquanto a lateral é o resquício da antiga fronteira que os lotes 48 e 50 tiveram até 1934.

Percorrer a história das partições, dos ajustes e desajustes de terrenos urbanos, como a relação entre os lote 48 e 148, é de sumo interesse, pois, enquanto um se torna regular, o outro surge como a própria irregularidade. De fato, o lote parece ter acolhido na sua área todas as sobras numéricas, todas as lascas de números que seu primo vizinho encarregou-se de expulsar em seu afã por tornar suas medidas números inteiros. Assim, “nosso” lote é um depósito de frações desalojadas de seu lugar, e as quais, sem saber onde se acomodar, ficaram amontoadas na metade do quarteirão, na forma de um terreno grande demais para ser um resto, e minúsculo demais para ser um lote.

Ao observar uma e outra propriedade separadamente — só tendo na mão o mapa de 1965 —, nunca nos perguntaríamos a origem da regularidade do lote 48, mas sempre questionaríamos a origem da irregularidade do lote 148. No entanto, é justamente a deformidade desse último que nos leva a percorrer a história de como o outro se tornou regular, ou seja, de como um lote qualquer pode chegar a ser um lote normal.

Temos, então, uma curiosa reviravolta, pois é a regularidade o que se faz surpreendente, já que ficarmos surpresos frente a um retângulo não é algo que aconteça todos os dias. O lote número 148 do Queens inverte os papéis, em que o homogêneo passa a ser estranho. Em síntese, o extraordinário, no caso, é o surgimento do retângulo, e não do trapezoide anárquico, irregular e inútil, comprado por Gordon Matta-Clark em 1974, quando tinha acabado de sair da faculdade de arquitetura e urbanismo, o reino dos retângulos, dos cubos, dos ângulos retos e dos números redondos.

Documentos

Lote 110 do quarteirão 2286
Retângulo de 1,0 por 1,11 pés. A grade que fecha a rua onde o lote está inserido continua igual desde que Gordon Matta-Clark tirou uma fotografia em 1973.
Documentos: Escritura, mapas e fotos de 2013.

1.1 Escritura
1.2 Mapa
1.3 Fotografia por Julia Buenaventura

Lote 146 do quarteirão 1107
O menor dos lotes de Propriedades Reais: Bens Fictícios, suas medidas são tão minúsculas (1,83 x 1,11 pés) que é impossível vê-lo nos mapas do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Adquirido por Manfred Hetch, assistente e amigo de Gordon Matta-Clark em 1973, o lote teria de ser passado ao artista, mas nunca foi diligenciado o tramite.
Documentos: Histórico do Departamento de Finanças da Cidade (a escritura não está nos arquivos), mapas e fotos de 2013.

2.1 Histórico do lote
2.2 Mapa
2.3 Fotografia por Julia Buenaventura

Lote 148 do quarteirão 2406
Lote em forma de paralelepípedo, seus lados maiores medem 4,8 por 5,83 pés. Na metade do quarteirão, este lote era descrito nos documentos oficiais como “inacessível”.
Documentos: Escritura, histórico de lote, mapas e foto aérea.

3.1 Escritura
3.1.2 Histórico do lote
3.2 Mapa 3.2.3 Fotografia aérea

Lote 160 do quarteirão 209
Um dos mais interessantes, triângulo cujo lado maior mede 2,69 pés. Gordon Matta-Clark passou por cima dele sem percebê-lo, terminando por fotografar um terreno vizinho. O lote 160 era um lote normal, até a construção da Avenida Long Island que retirou 1873 pés de seus 1900, deixando uma área de 27 pés quadrados.
Documentos: Escritura, mapas e fotos de 2013.

4.1 Escritura
4.2 Mapa
4.3 Fotografia por Julia Buenaventura

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego