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Intervenções urbanas disruptivas no fim da ditadura

por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Henri Lefebvre1˟ 1 LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell Publishers, 1991, p.39.

Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica. Entretanto, a instalação permaneceu ali apenas por algumas horas, até a chegada dos policiais e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), e o fluxo cotidiano de automóveis retomou a paisagem “normal” logo pela manhã. O grupo, que já previa a efemeridade da sua instalação, fez denúncias “anônimas” aos meios de comunicação e acabou por ocupar e apropriar-se tanto do espaço da cidade quanto das mídias de massa - a Rede Globo (16 de julho, 1980) e os jornais Folha de São Paulo (20 de julho, 1980) e O Estado de São Paulo (15 de julho, 1980) - num momento de grande importância política, quando a ditadura militar caminhava para o seu fim.

INTERVERSÃO VI, 3Nós3, São Paulo, 1980 (arquivo Mario Ramiro/3Nós3)

Aquele túnel não foi escolhido pelos artistas por acaso, ele era um conhecido ponto de encontro dos pichadores e, portanto, um lugar de resistência para a arte urbana independente. Vale apontar que as intervenções artísticas continuam acontecendo no local até os dias de hoje: o túnel é totalmente ocupado com os painéis dos grafiteiros e também pela sobreposição dos pichos.

A intervenção descrita acima, Interversão VI (1980), foi organizada pelo coletivo de arte independente 3Nós3, que surgiu dentro da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e atuou de 1979 até 1982, formado por Mario Ramiro, Hudinilson Junior e Rafael França. Eles subverteram tanto aquele espaço quanto outros, em oposição ao uso funcionalista e tecnocrático que o governo militar impôs à cidade.

[...] a ideia de colocar 300 metros de plástico na Avenida Paulista, sem autorização da polícia ou da prefeitura, mostra exatamente a ocupação de um espaço que estava se distendendo. Um espaço que deixou a compressão da ditadura e começa a ter uma “distensão”, como se fala em política, e é exatamente nessa distensão que a gente vai trabalhar.
Mario Ramiro2˟ 2 MESQUITA, André. Insurgências Poéticas: arte ativista e ação coletiva (1990-2000). Universidade de São Paulo: São Paulo, 2008. [Dissertação de Mestrado], p. 356.

A ditadura militar teve início em primeiro de abril de 1964, após o presidente João Goulart ser deposto. O governo militar ficou durante 21 anos no poder e implantou diretrizes adversas e violentas, entre elas, os Atos Institucionais - o AI-5 (1968-1978) foi o último e mais duro, com a substituição da Constituição de 1946 pela de 1967 e a dissolução do Congresso Nacional. Durante esse período, o espaço da cidade de São Paulo refletiu, como um espelho, a violência do regime, pelas grandes obras de engenharia e infraestrutura urbana que priorizavam as rodovias para automóveis. Significativamente, é entre os anos de 1969 e 1973 que foram construídas as seguintes vias: as avenidas 23 de Maio e Radial Leste, a Ligação Leste-Oeste (Minhocão, Praça Roosevelt e Viaduto Jaceguai), as alças e viadutos sobre o Parque D. Pedro II, as Marginais dos rios Tietê e Pinheiros, as obras do metrô Sé, com a revitalização da praça homônima, e o parcialmente implantado projeto Nova Paulista.

Praça Roosevelt em obras, revista Manchete 1970

Tais obras técnicas e estéreis apareciam publicamente, por ironia — como a da Praça Roosevelt, na imagem acima, publicada na revista Manchete — como se estivessem investidas de humanidade. A sociedade burguesa moderna desenvolveu meios de produção e de troca gigantescos, “como o feiticeiro incapaz de controlar os poderes ocultos que desencadeou com suas fórmulas mágicas”3˟ 3 BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.41., ou seja, assumiu a barbárie de um planejamento baseado em estratégias massivas de maximização dos lucros em nome da modernidade, mas com características precisas: homogeneidade-fragmentação-hierarquização. Para o filósofo Henri Lefebvre, uma curiosa lógica predomina nesse tipo de planejamento: ele se vincula ilusoriamente à uniformização e oculta, sob sua homogeneidade, as relações “reais” e os conflitos.4˟ 4 LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell Publishers, 1991, p.124.

Em contraposição a essa lógica funcional e tecnocrática das obras da ditadura, o grupo 3Nós3 inverteu e interrompeu o fluxo de carros em avenidas, pontes e túneis, mesmo que durante um curto espaço de tempo, com suas intervenções de grande porte com plástico polietileno.

Na intervenção urbana 27.4/3 (1982), o grupo dispôs paralelamente quatro tiras de polietileno vermelho no gramado entre as faixas da Avenida 23 de Maio, próximo ao Viaduto D. Paulina. O plástico foi retirado no dia seguinte pelos moradores da Vila de Itororó, que os reutilizaram em suas casas. Naquela época, a vila passava por um processo de degradação, que a construção da avenida sobre o antigo Riacho Itororó agravou. A vila é um conjunto eclético e singular, construído entre 1922 e 1929, e o rio que passava rente ao imóvel servia às piscinas públicas que existiam dentro dela.

27.4/3, 3Nós3, São Paulo, 1982 (arquivo Mario Ramiro/3Nós3)

Em Arco 10 (1981), eles instalaram, em diagonal, cem metros de plástico polietileno amarelo embaixo do viaduto da Avenida Dr. Arnaldo. A ação foi retirada pela CET logo pela manhã, e causou bastante confusão aos motoristas que estavam dirigindo-se ao trabalho.

Arco 10, 3Nós3, São Paulo, 1981 (arquivo Mario Ramiro/3Nós3)

Em Conecção (1981), o grupo estendeu uma longa faixa de polietileno vermelho na ligação das avenidas Dr. Arnaldo, Rebouças e Pacaembu, entre o respiradouro do túnel do metrô e a grama. A palavra “conecção” foi um neologismo criado por eles, significando a “ação de conectar”.

Conecção, 3Nós3, São Paulo, 1981 - (imagem do arquivo de Mario Ramiro/3Nós3)

Além do 3Nós3, outros coletivos de arte realizaram intervenções urbanas na virada da década de 1970 para a de 1980, entre eles Viajou Sem Passaporte, Manga Rosa, Atelier Mãe Janaína, GEXTU, d’Magrelos e outros. Os trabalhadores e os estudantes também voltaram para as ruas em manifestações políticas e festas populares. Pode-se considerar tal agitação social como um sintoma da “retomada” dos espaços públicos graças à progressiva perda de popularidade dos miltares no Brasil. Entretanto, a transição política para a democracia só se efetivou em 15 de março de 1985, com José Sarney no cargo de presidente.

Nesse contexto, os coletivos de arte independente misturaram diversas linguagens em busca de um “outro modo” de entender e fazer política, através de expressões livres, capazes de incluir a arte nos novos comportamentos fora dos padrões de coerência, nos discursos contestadores, da crítica militante e dos programas estéticos. Assim, trocaram as salas de espetáculos pelas ruas, as editoras pelos mimeógrafos ou a tipografia, as grandes gravadoras musicais por produções caseiras com equipamentos considerados obsoletos, e formaram associações livres e cooperativas: “ser parte daquela comunidade implicava não só participar de processos de criação coletiva, mas compartilhar e conviver”5˟ 5 ARTE EM REVISTA (EDITORIAL). Arte em Revista, São Paulo, v.3, n.5, 1981, p.3..

Apesar de colaborarem entre si, cada coletivo utilizava diferentes procedimentos para agir na cidade. Por exemplo, ao contrário do viés contextual das ações do 3Nós3, o Viajou Sem Passaporte estava interessado em ações inter-relacionais, capazes de incitar um diálogo físico e/ou verbal entre os performers e os transeuntes, como na sequência de intervenções chamadas de trajetórias.

A Trajetória da Árvore (março de 1979) aconteceu na Praça Dom José Gaspar, em torno de uma árvore próxima à Biblioteca Municipal, no centro de São Paulo, e teve o seguinte roteiro: a cada minuto um integrante do grupo saia de uma esquina, caminhava normalmente pela calçada, fazia uma volta em torno da árvore escolhida e continuava seu caminho até desaparecer na Avenida São Luís. Dez pessoas participaram, sendo que algumas ficaram incógnitas no bar, tirando fotos e colhendo as impressões dos transeuntes.

Trajetória da Árvore, São Paulo, 1978 (arquivo Viajou Sem Passaporte)
Trajetória da Árvore, São Paulo, 1978 (arquivo Viajou Sem Passaporte)

Na Trajetória do Curativo (abril de 1979), o grupo definiu uma linha de ônibus e dividiu-se: cada um dos oito integrantes ficou em um ponto diferente, todos com um curativo no olho esquerdo. Logo após o ônibus ter começado o seu trajeto, o primeiro integrante do grupo entrou no veículo, passou a roleta e desceu no próximo ponto. Enquanto isso, o segundo integrante subiu no ônibus. Fazia parte do roteiro ter duas pessoas do grupo dentro do ônibus, uma com curativo no olho e outra para observar as reações dos passageiros, que diziam frases como: “Isso daí deve ter sido organizado, né? (Se é que alguém se organiza para fazer esse tipo de coisa)”. No último ponto da trajetória um deles ficou com um cartaz nas mãos, onde estava escrito: “Trajetória do Curativo, assinado Viajou Sem Passaporte”.6˟ 6 VIAJOU SEM PASSAPORTE. Arte em Revista, São Paulo, v.6, n8, 1984, p.117.

Trajetória do Curativo, São Paulo, 1978 (arquivo Viajou Sem Passaporte)
Trajetória do Curativo, São Paulo, 1978 (arquivo Viajou Sem Passaporte)

Na Trajetória do Paletó (maio de 1979), o procedimento foi o mesmo, com uma diferença, o objeto escolhido: um paletó ao invés do curativo. Sendo assim, no primeiro ponto um deles entrou no ônibus, sentou-se com um paletó nas mãos; no próximo ponto, o segundo entrou e sentou na frente do anterior; o primeiro entregou a roupa ao segundo dizendo: “o senhor poderia segurar o meu paletó?” e desceu do ônibus. E assim repetidamente, até que, no oitavo ponto de ônibus, o paletó foi finalmente entregue para um passageiro. No paletó estava escrito “Trajetória do Paletó”, e junto havia um pedido de retorno com o endereço onde ele deveria ser entregue, mas a peça de roupa nunca foi devolvida.

O Viajou Sem Passaporte surgiu antes do 3Nós3, em maio de 1978, e teve intensa atuação até 1982, sendo composto por oito estudantes das áreas de artes cênicas, cinema, música e jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo: Beatriz Caldano, Celso Santiago, Carlos Alberto Gordon, Luiz Sergio Ragnole Silva (Raghy), Marli de Souza, Márcia Meirelles, Marilda Carvalho e Roberto Mello. Desde o princípio, eles buscavam instaurar crises na normalidade, por meio da experimentação de novas possibilidades criativas, que fugissem não apenas do controle do regime militar, mas do próprio controle que os artistas em geral pretendem ter sobre suas criações.

Naquele momento, a arte seguia as mais variadas preocupações estéticas e políticas — desde a “racional”, relacionada ao teatro político strictu sensu, até os vanguardismos estéticos de herança dadaísta, considerados “irracionais” pela crítica. Os coletivos independentes faziam parte da chamada “linha irracional”7˟ 7 A arte independente foi chamada também de arte marginal, contracultural, underground, subterrânea, undigrudi, experimental, curtição ou desbunde. Ver mais sobre essa classificação em Arte em Revista, 1984, número em que a publicação foi inteira dedicada ao tema., assim como o Teatro Oficina e os pós-tropicalistas — que recusavam o engajamento populista dos anos 1960 e instauraram um novo clima político. Sua produção cultural privilegiava a “intervenção múltipla sob a forma de resistências setorizadas, abandonando o projeto globalizante de tomada de poder”.8˟ 8 HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Impressões de Viagem: CPC, vanguarda e desbunde 1960/70. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004, p.105.Portanto, as práticas do Viajou Sem Passaporte e do 3Nós3 destinavam-se precisamente a minar a autoridade da razão em busca de uma transformação de atitude ao mesmo tempo afirmativa e rebelde.

Suas intervenções tinham um viés “disruptivo”9˟ 9 O conceito “ação disruptiva” foi criado pelo diretor de teatro contemporâneo Antônio Araújo em um de seus artigos, que trata do seu trabalho teórico-prático nos processos de criação do Teatro da Vertigem, e em cursos e workshops sobre intervenção urbana, nos quais ele atua como professor. Para mais informações, ver o artigo ARAÚJO, Antônio. “Ações Disruptivas no Espaço Urbano”. ABRACE Digital: 2011, p. 1-6. , eram atos de ruptura em busca de “desvios momentâneos”, decisivos e reveladores da totalidade de possibilidades contidas na existência diária. Considero tais fissuras possíveis, pois assim como Marcel Duchamp, também creio que “a arte desemboca em regiões que nem o tempo nem o espaço dominam”10˟ 10 PAZ, Octavio. Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza. São Paulo: Perspectiva, 2012, p.63., como um buraco negro. Desse modo, ela pode ser capaz de nos levar a outras dimensões e, quem sabe, a outro cotidiano, na contramão das noções de produtividade e eficácia, no qual haja o prazer antissistêmico, e não mais atividades humanas anestesiadas pela alienação.

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego