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Direitos humanos, direitos urbanos

entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre1 1 O filósofo francês Henri Lefebvre publicou o livro O Direito à Cidade. em 1968.. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

celeuma: As melhorias no espaço público e na infraestrutura urbana tendem a resultar em valorização comercial dos imóveis e em elevação do custo de vida, com a consequente expulsão da parcela da população que não consegue arcar com as despesas crescentes. Como a prefeitura busca equilibrar a implementação dessas melhorias com uma política de permanência de grupos mais vulneráveis?

Marília Jahnel: Esse é um grande desafio, porque há sempre essa contradição: você valoriza um terreno com infraestrutura, e o mercado imobiliário expulsa parte da população. Até mesmo intervenções de grupos ativistas, que provocam um novo olhar para os espaços e que vão no sentido de questionar a especulação, acabam muitas vezes contribuindo para esse processo. O mercado imobiliário é muito bem estruturado, e é difícil fazer com que os investimentos públicos e as intervenções da sociedade civil não expulsem as pessoas para a periferia, para lugares onde não há muita coisa além da moradia. No plano diretor aprovado recentemente há propostas mais concretas em relação a isso, que procuram manter a população onde a infraestrutura já existe.

c: Falando em plano diretor, os relatórios das discussões com os movimentos pró-moradia sobre as regiões a serem demarcadas como ZEIS 3 – Zonas Especiais de Interesse Social, que já têm infraestrutura e são mais centrais – chegam ao mercado imobiliário, que, vendo com antecedência as áreas a serem destinadas à habitação social, sai na frente e protocola construções que impedem isso. Assim, uma ferramenta para conter a expulsão de grupos mais vulneráveis acaba inutilizada. Existiria um outro meio para se fazer isso?

M.J.: A gente sabe que o mercado imobiliário tem informações privilegiadas e facilidade de obter licenças e autorizações. É um problema que herdamos e está infiltrado no modo como as coisas foram construídas, dando esse espaço todo para a ação do mercado imobiliário, com falhas da parte do Estado. É uma lógica que precisa ser invertida.

c: Qual é o papel da Coordenação de Promoção do Direito à Cidade nessas questões? Essa Coordenação não deveria ser intersecretarial, já que o tema percorre os direitos humanos, a habitação, o desenvolvimento urbano, os transporte, os serviços etc?

M.J.: Quando criamos a Coordenação de Promoção do Direito à Cidade, fizemos esse recorte associando o direito à cidade aos direitos humanos porque precisávamosmos delimitar nossa atuação, mas também porque queríamos reconhecer iniciativas da própria sociedade civil em direção a novas formas de ocupação do espaço público. E a interdisciplinaridade acaba sendo uma questão que o gabinete do prefeito tem que articular com as outras secretarias. A ideia é colocar o espaço público como um lugar de disputa e aproximar os direitos humanos do cotidiano das pessoas. A associação entre direitos humanos e direitos para bandidos ou para zonas de guerra é uma distorção, produto dessa distância. É a primeira vez que São Paulo tem uma secretaria dedicada aos direitos humanos, ainda que muitas vezes a gente não use esse termo. Quando falamos de homofobia ou de direitos das mulheres, estamos falando de direitos humanos.

c: Você falou da ocupação dos espaços públicos e de como isso é uma mudança na relação do paulistano com a cidade. A Coordenadoria trabalha com qual período histórico quando pensa nessa mudança e nessa demanda vinda do cidadão?

M.J.: Um pouco antes de 2013 já existia uma movimentação na sociedade no sentido da ocupação do espaço público e, em junho de 2013, isso explode e se solidifica. As pessoas estão pedindo participação, mas não a participação tradicional por conselhos e congressos. Nós podemos entender uma aula pública ou uma exibição de filme como participação, mas, nesse caso, fica a pergunta de como encaminhar as demandas. Uma coisa é ter um conselho com reuniões e atas, outra coisa são essas novas formas de participação. Como o governo pode lidar com essas demandas mais fluidas? Porque de algum jeito tem que haver formalidade e padronização.

c: Fernando Haddad declarou que sua administração tem como objetivo "mudanças de comportamento" no cidadão. Que aspectos comportamentais do paulistano a gestão busca modificar?

M.J.: Mudar alguns paradigmas, A gestão vai numa linha que não é a de grandes obras, mas de mudanças que provoquem reflexão sobre a relação com a cidadecomo o da mobilidade, por exemplo. Quando o governo prioriza o corredor de ônibus e a ciclovia, está apontando para o fato de que a prioridade não serão mais os carros. É o primeiro passo de uma mudança estrutural, e tem a ver com comportamento porque implica em olhar para a cidade de um outro jeito e provocar questionamentos tais como “será que eu posso ir de bicicleta?”, ou “será que não dá para ônibus, carro, bicicleta e pedestre conviverem?”. A gestão vai numa linha que não é a de grandes obras, mas de mudanças que provoquem reflexão sobre a relação com a cidade. Por exemplo, no programa Transcidadania a questão não é só reconhecer que existe um grupo específico que precisa de políticas públicas, mas também provocar um debate sobre o assunto, porque não dá mais para negar a presença dessas pessoas na cidade.

c: Você poderia falar da Wikipraça, da Casa Rodante e da Casa Latina?

M.J.: São três pilotos em três territórios simbólicos da cidade, com o objetivo de requalificar esses espaços.

Na Luz, a Casa Rodante inicialmente era um projeto de dez meses em conjunto com o pessoal do programa De Braços Abertos. A proposta era chegar com diferentes linguagens e abordagens para promover o encontro das pessoas dali. Ao mesmo tempo em que cuidamos da horta ou exibimos um filme, conversamos e entendemos demandas daquele lugar. Atividades pela manhã atraem um certo público; à noite, outro, com outras demandas, e o propósito é integrar todos esses moradores e olhar para a Luz como bairro, sem o estigma de Cracolândia, enquanto o De Braços Abertos trabalha com a redução de danos.

Já a Wikipraça, no Largo do Arouche, é uma parceria com a Coordenação de Políticas para LGBT. O projeto tem uma linguagem de redes sociais, na direção da integração entre redes e ruas, com criação de aplicativos além de intervenções físicas, como horta urbana e oficinas. E o Largo do Arouche é um território complexo, onde a cada dia as esquinas se tornam diferentes, então a ideia é conhecer melhor a região para termos dados para pensar em políticas, num mapeamento que acontece durante a própria intervenção.

Por último, a Casa Latina, na Praça da Kantuta, é uma parceria com a Coordenação de Políticas para Migrantes. Aos domingos o local sempre teve movimento por causa da feira tradicional dos imigrantes, então queríamos dar um outro uso para a praça durante a semana. Fazendo essas intervenções, muitas vezes percebemos que precisamos chamar a subprefeitura para fazer alguma coisa. Havia problemas de zeladoria, muito lixo, e conseguimos a troca da iluminação, reforma de banheiros, oferecimento de wi-fi etc. Na Luz também conseguimos consertar bancos, construir canteiros e reformar banheiros. Então os projetos têm um lado artístico e cultural, mas também estão lá para ouvir a população.

c: Durante as ocupações de escolas estaduais frente à proposta de reorganização escolar do governador, observou-se uma mudança na relação entre os alunos e esses espaços. A ameaça de perda desses espaços e a experiência de autogestão proporcionada pela ocupação dispararam uma onda de engajamento e apropriação. Pode-se dizer que as escolas temporariamente passaram de espaços públicos a espaços comuns ou comunitários. Como a prefeitura vê a possibilidade de gestão popular de bens e espaços?

M.J.: As ocupações mostraram novamente que os jovens não são acomodados e alienados, como muitas vezes se quer fazer acreditar. Também é nítido o fato de que houve uma mudança comportamental desde junho de 2013. Os impactos foram muito além da educação, com a quebra do silêncio da imprensa em relação ao governo Alckmin e com o reforço ao debate sobre a desmilitarização que a reação da polícia provocou.

No nosso caso, há muitas possibilidades de implantação de gestões participativas. Espaços culturais e espaços públicos são, em geral, sempre bons para esse tipo de iniciativa. Tivemos uma experiência positiva com o pessoal do Largo da Batata e com a subprefeitura de Pinheiros discutindo o mobiliário que seria instalado lá.

Mas como fazer as coisas serem compartilhadas de fato, garantindo a presença de atores diversos?

Mas como fazer as coisas serem compartilhadas de fato, garantindo a presença de atores diversos? O meu receio é que acabem estando presentes sempre as mesmas pessoas, quando, na verdade, deveria haver uma grande diversidade. O que fazer para ter toda essa representatividade em uma cidade do tamanho de São Paulo?

c: No Plano Diretor se fala dos conselhos gestores dos espaços públicos, que são compostos por eleição. Isso é preocupante, porque esses conselhos acabam ficando na mão das associações de moradores, como no caso do Parque Ibirapuera e da Praça Roosevelt. Mecanismos de participação existem na teoria, mas na prática em geral não funcionam.

M.J.: Mas quem quer fazer parte desses conselhos? Como a gente amplia esse debate? O problema não se resolve só com estratégias de comunicação, a cidade é muito grande e inclui visões diferentes. Acho que a questão é encontrar modos de descentralizar o governo municipal. As subprefeituras são criadas com esse intuito, mas isso ainda não está bem estruturado.

c: O ativismo dos dias de hoje tende a reunir pessoas que agem com as próprias mãos para construir o que desejam, em contraste com tempos em que os movimentos sociais brigavam por políticas públicas. Como lidar com a descrença da população em relação à representatividade e ao poder público?

M.J.: Eu acho que temos que tomar cuidado com esse discurso de descrença no poder público, porque me parece que quanto mais a gente fala disso, mais as pessoas acabam reproduzindo essa ideia. A sociedade ainda está estruturada desse jeito, com poderes executivo, legislativo e judiciário, e com eleições em um período democrático, portanto temos que aprender a dialogar. Às vezes me parece que há um problema de informação sobre o que é da responsabilidade do município, do estado e da federação. Qual é a alternativa proposta quando se diz que é tudo igual?

c: Se pensarmos na gestão compartilhada entre sociedade civil e poder público, teoricamente temos aí um começo de conversa…

M.J.: Uma coisa é questionar a organização do sistema, pensar a democracia para além da eleição, pensar em novas formas de participação e estar disposto a construir isso. Tanto a sociedade civil quanto o governo têm a obrigação de se questionar e de inovar. E por isso é importante que pessoas novas — não de idade, mas de ideias — participem de instâncias formais do poder público. Senão o governo pode até cumprir deveres, cumprir metas, mas será medíocre e não estabelecerá diálogo. Não está escrito em lugar algum que precisa haver políticas participativas, mas o resultado delas é sempre muito melhor, apesar de dar muito mais trabalho.

c: Que ações governamentais de promoção do direito à cidade implementadas em outros locais a gestão atual tem como exemplos a seguir?

M.J.: Participei recentemente de um congresso internacional em que diversas cidades apresentaram projetos muito parecidos com os propostos em São Paulo, como as questões do fornecimento de wi-fi, de ciclovias, do fim da prioridade do carro na mobilidade urbana, da limitação do tempo de estacionamento em áreas centrais, todas elas com o debate sobre a ocupação do espaço público e a participação mais direta da sociedade no horizonte. São processos semelhantes em diversas cidades da América Latina, entre elas a Cidade do México e Quito. Medellín, por exemplo, fez uma quantidade enorme de praças e parques que foram apropriados pela população em pouco tempo. Sei também que Madri e Barcelona estão discutindo a participação não institucionalizada, mas em geral fico sabendo mais de ações da sociedade civil do que de políticas públicas.

c: E a proposta de proibir a circulação de carros no centro de Paris para diminuir a poluição e incentivar outras formas de transporte?

M.J.: Aqui em São Paulo já houve discussão sobre a circulação de carros no centro, mas hoje estamos focados no programa Ruas Abertas, com a intensão de que cada subprefeitura tenha uma rua aberta aos domingos, além da Avenida Paulista. A própria subprefeitura sugere uma rua, sempre após estudo da CET, e depois leva para uma audiência pública que pode referendar ou questionar aquela escolha. Mas como fortalecer o uso dessas ruas pelas pessoas? A Avenida Paulista funciona sozinha, mas nem todas as outras ruas são assim, então estamos agindo junto com as Secretarias de Cultura e de Esportes, Lazer e Recreação para estimular uma frequência habitual, para além de shows e de outros eventos pontuais, já que as ruas abertas são uma boa opção para regiões com poucos parques.

c: O espaço público é muito frequentemente utilizado apenas como lugar de passagem. O ex-Secretário de Direitos Humanos Rogério Sottili usa a expressão “cultura do ‘circulando’”. Diante disso, como promover a utilização do espaço público como um lugar para estar?

M.J.: A “cultura do ‘circulando’” é um resquício da ditadura, quando as pessoas paradas na rua eram colocadas para “circular”, o que nos legou uma proibição do simples “estar na cidade”, que se manifesta no gradeamento das praças e na abordagem policial que acontece a determinados grupos, entre outras coisas.

A Coordenação de Promoção do Direito à Cidade nasceu da sensação de que a própria sociedade estava reocupando o espaço público, com novos usos que demandam infraestrutura da prefeitura, como mobiliário, bebedouros e áreas de sombra, mas também políticas que ajudem a construir uma cidade mais democrática, lidando com questões como a violência policial e a violência contra a mulher.

Muita coisa pode ser feita para resgatar o estar no espaço público, para a gente não apenas passar de casa para o trabalho e do trabalho para casa ou somente ir a lugares de convivência e de encontro que necessariamente envolvem o consumo, como o restaurante e o shopping center. As ciclovias têm muito a ver com isso, porque a própria prática de andar de bicicleta traz em si uma outra relação com a cidade, muito mais aberta e amistosa.

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego