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Conjunto cinerama

texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

A porta vermelha, a picape velha vermelha estacionada em frente 1 ˟ , olha lá secando na janela o tapete idem, com um bem vindo escrito em branco e, seguindo um pouco mais, logo depois do posto móvel da polícia, mas sempre estacionado nesse lugar, o fusca, parece mentira, vermelho. Está, sim, visivelmente feliz de pilotar a menor casa rodante do mundo, que - além de cama, lavatório, fogão, geladeira e mais uma quantidade incrível de coisas que mal se notam à primeira vista, de tão pequeno que é o espaço, incluindo imagens de heróis e lugares da terra deles coladas por dentro nas portas – tem até biblioteca, como não? Uma meia dúzia de livros entre o câmbio e a haste do acelerador, encostados num aquário com peixinhos e tudo.

Fora que, na capota, barras metálicas e uma prancha larga permitem instalar barraca e colchonete para um dos dois adultos dormirem, e que de dia pode se transformar no palco com a caixa de som para ela, que é cantora, se apresentar de vez em quando, deixando a criança de colo com o marido – e sempre com Ele, como dizem – de tal modo que, ao longo de toda a rota prevista, que vai de Lima a alguma cidade do Alasca, será como se não tivéssemos saído de casa porque tudo o que uma boa casa geralmente tem está aqui em qualquer parte. O arroz guardado no para-choques largo adaptado para armário de mantimentos, a cebola e outras coisas necessárias à sobrevivência são fornecidos por um dentre os muitos restaurantes aqui da Rua Guaianases, solidário com a viagem, enquanto aguardam para ver se alguém da televisão vem para uma entrevista que faça aquele pessoal do Guinness aceitar de uma vez que se trata afinal da mais compacta residência ambulante que existe, pelo menos equipada dessa maneira.

Nada a ver com o velhinho de boné opaco, quase mudo na porta da oficina do outro lado da rua. Fala só quando insistem, e com um fio de voz como o do seu próprio corpo de amolador de facas e tesouras escapado de um filme neo-realista, a se esgueirar pelo trânsito entre Santo Amaro e Brooklyn desde que chegou da Galícia, diz que em 1962, para atender donas de casa, e vindo até aqui de tão longe porque se habituou aos mecânicos da rua para consertar sua mobylete com esmeril acoplado ao motor 2 ˟ . Nem faria diferença saber o que Aristóteles pensou sobre o lugar não ser matéria nem forma, de todo modo, não haveria razão para duvidar de que é possível até alugarem por aí edredons para pessoas dormirem na rua, muitas com trabalho fixo, acredite, mas pessimamente remunerado, claro, incluindo no preço alguém ficar de olho para que ninguém venha roubar nada ou, sei lá, fazer coisa pior.

Bom, mas isso está acontecendo parece que em Mumbai, deu no jornal ou ouviu comentários, difícil lembrar ao certo de quem, hoje em dia todo mundo fala ao mesmo tempo, você fica confuso. Talvez tenha sido o Fabrício ou algum morador da área, que veio de lá como tantos outros, quem contou essa história. Seja como for, não seria estranho acontecer e deve estar acontecendo coisa do gênero em qualquer dessas cidades enormes de hoje, com 10, 15 milhões de habitantes, às vezes mais – São Paulo, por exemplo. Se for reparar direito, por entre esse primeiro corredor de prédios e continuando pelo resto da rua, para não falar das travessas laterais, tem gente em condições parecidas 3 ˟ , principalmente nas quadras que dão para a praça onde ninguém dá bola para a estátua enorme do nobre general e cavalo 4 ˟ que dizimou ainda mais gentes no país e cercanias, quando era parte do império da lei haver escravos.

Lei escrita, você quer dizer, porque mesmo depois ou fora daquele império existem tantas subentendidas, a se infiltrar na vida desse mendigo que vai catando latas, vasculhando cuidadosamente os cantos num vestido aveludado preto sobre a pele negra, a alça da bolsa de couro de viajantes gasta atravessada no peito e vários pequenos coques no alto da cabeça já quase toda branca como a sua barba rala. Ou na do homem todo dia ali por perto da sede da mesquita, o cara moreno e meio gordinho, para os nossos padrões, vestido normalmente, mas dá para perceber que há dias não se lava nem nada, rondando a esquina com lixo acumulado e falando o diabo sem parar, numa melancólica ira contínua contra qualquer um que passe. Daí que já quase nem é notado também, naquele pedaço muito animado, onde um grupo de negros entra e sai da sinuca e atravessa de um lado para o outro da rua, falando em alto e bom som o que você não entende. E, portanto, não sabemos que ele foi levado duas vezes de volta pela família para a cidade deles, vieram especialmente para isso – do Peru ou da Colômbia – o Pablo não lembra direito, mas o homem sempre retorna e fica dia e noite por ali, fazendo a mesma coisa.

Tudo bem, deixa ele quase esbarrar nas pessoas e até gritar se quiser. “Mas não aqui na porta do nosso templo”. Dizem que a igreja é peculiar em cristo por conta da maneira de celebrar a irmandade e a descendência divina. “A gente faz assim na Nigéria”. E quem não sabe de nada – “Aliás, nem tenta saber” – fica lá de fora achando que ouve uma farra de samba de roda no ritmo das palmas e das vozes que respondem à do pastor. Sim, aqueles lá já são outros, embora filhos de algum deus também, coitados. Encurralados na quina entre a parede descascada e o portão da garagem, pertences esquadrinhados em pleno meio-dia, mãos para trás, ninguém fala, isso mesmo, olhando para o chão, devagar, vamos ver. O tempo morto do mundo nos murmúrios de um jogo em suspenso entre o time destreinado, de camisetas, calças ou shorts amarfanhados, chinelos gastos, mochilas murchas, e, de outro lado, o escrete da patrulha como se amarrado dos pés à cabeça, tudo, botas, coldres, coletes, capacetes, tudo bem justo. Não se sabe por onde respiram. Até que vem um chiado no rádio e saem nas motos bufando.

Não viram? Teria sido bem na hora em que apareceu o rapaz, deslizando a passo solto, só por um instante interrompido para observar a situação em torno e conferir o que tinha na carteira, e quando quem estava olhando se distrai um pouco com o cheiro forte que vem de perto da porta fechada do bar, onde várias pessoas estão encostadas, ele some de repente. Mas logo retorna de bicicleta pela mesma calçada, conversa com quem está por ali e sai de novo pedalando na contramão pelo meio do asfalto. A essa altura já atravessou a fieira de lojas em que vocês encontrariam quarteirões de todo tipo de peças para motos, em qualquer condição, e deve estar longe, quer dizer, por perto, descendo a rua direto para campos elísios.

Lá a paisagem é diferente, ah, com sombras espalhadas por árvores enormes e debaixo delas não se encontra quase ninguém, nem mesmo os fantasmas de uns poucos que antigamente decidiam para si os destinos de muitos outros, a partir de amplas habitações, sobrando quase intactas nesse trecho da rua, embora hoje atacadas pela defunção de suas ex-funções, uma vez que os sucessores daqueles espectros migraram para campos seguramente mais vastos, sem, no entanto, descuidar de antes recheá-las de reformas e de mais muitos outros que, unidos e malfadados, cuidam de mantê-las como porto para novos negócios 5 ˟ . Seguindo pela ciclovia, ele confirma o aparente fim de semana eterno que paira na área e só retira a maquiagem nas pontas do dia, com um breve alvoroço de carros e de pessoas que chegam de segunda a sexta pelo grande terminal de ônibus da Princesa de todos os cantos da cidade e retornam a eles mesmos. Ou na hora do almoço, quando indivíduos distintos por cartões pendurados no pescoço percorrem em grupos essas quadras onde as coisas são ininterruptamente acordadas desde dentro nos expedientes.

Pois essa rua vai dar no muro da linha do trem 6 ˟ que, baldeando e baldeando, leva a gente até outra placa guaianazes, ao leste do nosso Letes, na beirada da cidade, distrito riscado sobre os velhos campos de Piratininga, do Lajeado Velho, depois virado Novo. E então aconteceu tanta coisa, tantos outros foram se espalhando aos poucos por aqui desde que o povo dos índios Guainás se extinguiu, os italianos, os espanhóis e, ainda depois, muitos mais vindos do nordeste do país. O senhor tem idade e viu 7 ˟ . Lembra da viagem no pau-de-arara e de como tudo isso era espaçoso há mais ou menos cinquenta anos e como foi crescendo dos dois lados da linha, mas se a pessoa aperta a vista para aquele outro lado de lá, ainda enxerga as ruas que rareiam depois das casas e dos conjuntos de predinhos alinhados iguais até os morros verdes que aparam o bairro. 8 ˟

E, de novo, não para de chegar gente, agora de muitos lugares mais do mundo. Deve ser por isso que o aqui vai indo bem. Mas é aqui mesmo? Apesar de estar escrito assim no grande logotipo na parede dessa espécie de agência sem porta giratória, a senhora se confunde, ao ver também ali um nome que sua memória envia a valores de filmes de caubói, western, unido ao do banco do país em que agora está. Tenta adivinhar o que fazem essas pessoas que falam nada ou muito pouco de português, deixadas estar sentadas nas filas de cadeiras, examinando as placas com instruções poliglotas, em espera talvez para telefonar, talvez para trocar seus dinheiros pelo real ou mandá-lo para longe, para as cidades de países onde estão seus parentes e o real é outro. 9 ˟

A não ser quando alguém desaparece – ou quando aparece já sem vida – todo dia tudo segue igual também nos locais de comércio de outros tipos, mas que oferecem serviços parecidos, daí pregarem nas paredes a lista detalhada de países e preços, porque sempre vão querer telefonar para a Colômbia, o Haiti, ou Cabo Verde, Costa do Marfim, Etiópia, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Libéria, Malawi, Mali, Marrocos, R. D. Congo, Serra Leoa, Togo, e também Índia, Israel, Líbano, Paquistão, Tailândia, ou mesmo para o velho Portugal, que há primos por lá. Pensa mais uma vez no que teriam deixado para trás, anos, meses, semanas antes, coisas e ideias tão mais claras, agora tentando não se dissipar na confusão, e por essa razão refeitas seja como for.

“De Congo. OK, no problema”, respondem dois deles ao terminarem a ligação, posando sem muita vontade com seu bebê para a foto que a moça da universidade, em pesquisa no bairro, pediu. E isso foi logo antes de o rapaz pedir o número do celular dela, o talvez paraguaio, o da banca de roupas na calçada do estacionamento, ele mesmo, que veio para cá por um novo caminho de Peabiru, há uns bons anos, com mulher, filhos, mãe, sogra, mantendo a família na costura. Não tem certeza de ela ter dado um OK também, você só sabe que atravessou a ponte com mais dois ou três para o outro lado, na direção da Nordestina, chamada avenida, porém não mais que uma longa rua de comércio e moradia, indo em curvas ladeira acima. 10 ˟

Ultrapassando o gradeado cheio de enfeites no ferro e vasos de plantas alinhados por dentro que dá para a rua-avenida, nesta segunda não se vê praticamente ninguém no bar dos africanos, como é conhecido. Embora todo o resto encontrado daquela vez esteja no lugar, a mesa de sinuca, a geladeira com propagandas de cervejas que nunca havia experimentado, umas tantas prateleiras com coisas de mercearia, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, o aviso em inglês sobre não vender fiado, o pôster corinthians campeão de 2012 e o atendente de poucas palavras, mas que se desculpou com gestos por incomodar, quando varria o chão perto da mesa dos visitantes. O almoço sai mais para o meio da tarde, quem frequenta sabe e vem chegando. E tem os que emendam no jogo até uma da manhã e vão embora muitas vezes tontos, andando do jeito que podem, vendo coisas pelo caminho. Como a calçada de pequenas pedras retangulares ondeando demais em preto e branco e – quem diria? – fazendo lembrar outras praias. 11 ˟ Adeus, Copacabana famigerada e, pelas notícias que se ouve, cada vez mais distante de algum milagre da Virgem boliviana que lhe cedeu o nome e tem patrícios devotos por aqui.

Não é bem assim que fazem os magros fiéis, evitando o sol quente debaixo do toldo ali na virada para a São Lázaro de Jerusalém 12 ˟ , mortos de calor, apesar de manterem as roupas fechadas até o pescoço. Vestidos compridos e ternos escuros e bíblias na mão, esperam talvez outros irmãos, mas quem de repente estaciona roncando é um carro de vidros escuros e som altíssimo, os graves socando tudo, entrando pelas solas dos sapatos e eles saem decididos em fila para aguardar mais adiante os que virão de cima. Pode ser que planejem ir juntos até a casa de parede azulejada onde a placa pintada à mão dizia venha buscar seu milagre, ainda que não se visse porta aberta e nem estivesse explicado se era para qualquer um que viesse de onde fosse. 13 ˟

"Vocês são daqui?" é justamente a pergunta feita a cada vez por todo lado. Numa delas três pessoas entre respeitosas e desconfiadas diminuem o passo dizendo “Tudo bem?” e logo depois o “São daqui?”, e, de nossa parte, dizemos “Não, de longe, lá de Pinheiros”, e soltam quase em coro um “Huummm...” compreensivo e vem então um curto equívoco. Porque não reconhecemos o sotaque e são negros, pensamos serem estrangeiros, “Mas vocês também não são daqui, né? De que país vocês vêm?”, e rapidamente retrucam “Não, irmão, a gente é daqui, nascido no bairro mesmo”, com um toque de contrariedade que embutia “Como assim, qual é a dúvida?”. Alguém poderia ter dito a frase daquele filme cheio de frases: vai chegar o dia em que vamos precisar de intérpretes para entendermos as palavras que saem da nossa própria boca.

Afinal, quem é estranho ou estrangeiro, que diferença se por último ou primeiro? Certo é que sempre haverá um jeito, como naquela lojinha de poucos por poucos metros – que muita gente viu na reportagem do jornal, na televisão, no portal – ao mesmo tempo posto de telefonia, lan house e salão do barbeiro senegalês, salvo engano, que à sua moda faz cortes ainda raros no bairro e espera calmo os clientes à vontade no sofá, assistindo televisão sem sapatos com dois amigos. Mas é favor não usarem sua nova cadeira – pls don´t seat, ele escreveu – se não for para barba e cabelo.

Com ele se arranja no mesmo pouco espaço a brasileira sua sócia ou dona de todo o negócio, já cansada de conversar sobre assunto de estrangeiros, que diabo, tanta foto e resposta e mais detalhe quer essa legião de ólogos e istas, prometendo voltar ou no mínimo mandar um aviso quando sair a imagem, a matéria, o artigo, tudo à toa. “Todos chegam falando com esse jeitinho”, “É o modo de falar de quem vem lá da zona oeste”, um dos visitantes arriscou dessa vez, “Mas eu morei na Lapa e nem por isso falo assim”, ela disse. Entretidos nisso, não percebem um Garoto que, deslocando-se de ainda mais longe, de outras épocas, assobia uma canção em alguma das janelas solitárias nas casas próximas, cada uma de fachada uniformemente colorida 14 ˟ , hoje bem cuidadas pelas mães de caras do pixo ou do grafiti, que fazem falar os muros do bairro e os de todo o caminho 15 ˟ tomado de volta até o miolo da cidade.

Chegando numa terça-feira de Carnaval, encontram a Rua Guaianazes com outra figura. Lá para baixo, perto dos trilhos, dois foliões desgarrados apontam os celulares para o rosto de Carolina de Jesus pintado enorme na lateral da casa do Ilú 16 ˟ , depois para a efígie da Mulher do Fim do Mundo estampada na faixa esticada na entrada, chamando para o desfile do bloco na sexta passada 17 ˟ , quando você disse a elas: “Foi lindo”. Mais acima, completamente lotados a praça da princesa e o cruzamento com a avenida do duque, bandos de piratas, máscaras terríveis de políticos, levas de alladins insanos e qualquer tipo de fantasia sobre um tapete de cerveja e latas. E então tudo quieto de novo na zona das lojas, sem todas as motos, sem mobylete do velhinho que atravessa a cidade. Nenhum sinal de twenty-four-seven. Foi seguindo e nada da menina que tinha aberto a portinhola para o homem carregar uma barra de gelo no ombro até virar na Aurora, nada do cara que uma vez se aproximou de queixo levantado, “Vai querer qual alegria hoje?”, nem do que pragueja incansável na esquina. Só o vai e vem sem feriado dos africanos, na última quadra. Mas, de uma hora para outra, mesmo eles se diluem surpresos numa correnteza de gente que largou o trio elétrico na avenida e entra por todas as laterais e não para de engrossar na direção da Timbiras, passando reto pelo restaurante da Vera 18 ˟ , pelo hotel Ideal, pela casa de embalagens Sonho Pronto, multidão prestes a sumir na boca larga do Conjunto Cinerama, aquele edifício em que o leito da rua começa ou termina e de onde imagino agora tudo isso se viu.

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego