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Cidade e Alteridade no Brasil

entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

celeuma: Considerando a história de violência brasileira (colônia, escravidão etc.), você acha que é possível pensar o conceito de "espaço público" aqui tal qual ele foi formulado originalmente na Europa? Nesse sentido, quais seriam as nossas diferenças? E ainda, que espaços/lugares você considera bem sucedidos, desse ponto de vista, no Brasil? foto de Antonio RisérioAntonio Risério. Foto: Felipe do Amaral, Baú da Escola da Cidade, 2015.

Antonio Risério: Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

É claro que o processo brasileiro foi bem diverso do que o que aconteceu na Europa, embora não devamos passar ao largo de algo fundamental: a violência da Revolução Industrial, massacrando cruelmente adultos e crianças das classes trabalhadoras, não ficou nada a dever ao escravismo nas Américas, como demonstrado por Friedrich Engels e Karl Marx, a dupla inaugural do materialismo histórico – lembre-se que crianças de seis anos de idade eram mandadas à força para as fábricas de Manchester, onde trabalhavam praticamente o dia inteiro (somente em 1802, e na Inglaterra apenas, a legislação cortou o emprego de crianças à noite e reduziu a duração do trabalho infantil para 12 horas por dia!).

é o espetáculo da diversidade das pessoas, no espaço público, que dá à cidade a sua qualidade essencial

Mas aquele nosso processo (colonialismo, escravidão etc.) foi bem próximo do que se viu nos EUA e na Argentina, por exemplo. Daí que também podemos dizer, com Lyn Lofland, que é o espetáculo da diversidade das pessoas, no espaço público, que dá à cidade a sua qualidade essencial. Primeiro, porque é no espaço público que aprendemos a interagir com estranhos, a mover-nos na multidão, a incorporar normas sociais básicas, a lidar com a alteridade. Segundo, o espaço público oferece oportunidades de relaxamento e entretenimento, implicando relacionamentos interpessoais. Terceiro, é um espaço de comunicação e de trocas, tanto materiais quanto simbólicas. Quarto, abre-se ali uma arena para a prática política e o aprendizado da cidadania: o espaço público ensina as pessoas a agir em conjunto, com as suas diferenças, e essa é a base da ação política. Quinto, é no espaço público que essas ações políticas ganham visibilidade social.

estamos assistindo agora a um renascimento dos espaços públicos nas principais cidades brasileiras

Por tudo isso, o espaço público gera uma espécie de cosmopolitismo, no sentido da tolerância e da civilidade. É certo que esta visão geral de Lyn Lofland admite contra-argumentações (podemos dizer, por exemplo, que não existe um espaço público único, que seja vivido do mesmo modo por todos os atores sociais, assim como lembrar que a violência urbana pode fazer desses lugares extensões desertas), mas, no essencial, as observações são corretas. Nessa direção, temos espaços que têm funcionado muito bem no Brasil, nas zonas centrais do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas também podemos citar diversos espaços de convívio espalhados pelo país e até, para a surpresa de alguns urbanistas, a Esplanada dos Ministérios em Brasília, por exemplo. Aliás, estamos assistindo agora a um renascimento dos espaços públicos nas principais cidades brasileiras, tanto com relação ao cotidiano das pessoas quanto no tocante às manifestações políticas multitudinárias. Penso que isso tem tudo para intensificar-se nessa crise geral que o país está vivendo, quando os chamados poderes executivo e legislativo atravessam conjunturalmente um processo de clara e irremediável desintegração.

c: Qual é o papel dos vários movimentos ativistas hoje, no Brasil, em relação a um processo de democratização das nossas cidades? Você acha que esses movimentos querem (ou devem) constituir uma espécie de força paralela ao Estado, no sentido crítico? Ou enxerga possibilidades (e mesmo necessidades) de colaboração e convergência entre ambos?

A.R.:As “minorias de massa” (para lembrar a expressão que Décio Pignatari costumava empregar) estão com suas antenas e radares funcionando, apesar de todos os ruídos e interferências. Caminham bem à frente do grosso da população, tanto na percepção de nossos problemas urbanos quanto na prospecção de alternativas e na formulação de possíveis novos rumos. Seu papel é esse mesmo: acender as luzes sobre os mais diversos aspectos da questão urbana contemporânea em nosso país, denunciar os obstáculos e os criadores de obstáculos (regra quase geral, entrincheirados poderosamente nas empresas privadas e no poder público) e apontar caminhos.

O governo federal, quase a totalidade dos governos estaduais e municipais e do empresariado privado atuam para ocultar tudo que de grave enraíza-se, aprofunda-se ou apenas se desenha em nosso meio. Manipulam, procuram ofuscar e distrair a sociedade, mentem. Com essa gente, não dá. É possível colaborar e estabelecer alianças com o poder público desde que este tenha compreensão de nosso atual momento urbano, disposição antipopulista para nadar contra a maré da insensibilidade, da desinformação e da estupidez da maioria da população e para realizar pelo menos o mínimo necessário que é possível no atual (e lastimável) momento brasileiro.

Temos o caso de Fernando Haddad em São Paulo, por exemplo. Costumo dizer que Haddad aconteceu com muito atraso, mas pelo menos aconteceu, coisa que não vejo no momento em nenhuma outra cidade brasileira. Eduardo Paes tem um lado truquista viciado, excessivo, muito prejudicial para o Rio; no Recife, Geraldo Júlio, paralisado, não diz a que veio; Salvador não faz mais que maquiagem apressada na orla; Márcio Lacerda (também conhecido, em meio à juventude de Belo Horizonte, como “Márcio Lamerda”) pensa que BH é uma empresa dele e age na pior cegueira da governança neoliberal, alheio ao que é uma cidade etc. Haddad é o prefeito de que São Paulo precisava, graças, inclusive, à sua solidão política (o PT o humilhou publicamente mais de uma vez). São Paulo foi agredida pelo engenheirismo grosseiro da ditadura, com os abusos malufistas. Erundina e Marta mostraram preocupação social, mas sem uma verdadeira visão urbanística. Serra e Kassab deixaram o barco neoliberal correr solto, lavando (ou sujando) as mãos. E só agora São Paulo tem um prefeito que procura ver a cidade em si mesma, como fenômeno socioespacial específico.

Mas Haddad, como disse, é uma exceção. Vejam o governo federal hoje, matriz de mentiras e falácias de toda ordem. A administração da senhora Rousseff é essencialmente irresponsável. No plano administrativo, com o patrimônio e o dinheiro públicos. No plano social, com o desemprego grassando e a inflação comendo o salário de quem consegue arranjar emprego. No plano ambiental, em que a lama de Mariana é no momento o signo mais vistoso. No plano mais especificamente urbano, dando as costas para o encalacro em que nos encontramos. Justamente o Ministério das Cidades é o exemplo maior do desprezo governamental pelo assunto. Foi criado em resposta a demandas sociais, mas logo se deu a sua precoce e completa desfiguração, já no segundo mandato de Lula. “O cara” precisava reforçar seu pelotão no Congresso depois que estourou o mensalão. Em troca de votos ali, ofereceu ao Partido Popular (PP) de Severino Cavalcanti, deplorável deputado pernambucano, sujeito do baixo clero mais rasteiramente ignorante e corrupto, o Ministério da Previdência. Severino bateu pé firme. Só toparia o jogo sujo proposto por Lula se ficasse com o Ministério das Cidades. Lula retirou então Olívio Dutra do cargo e entregou a pasta à gangue de Severino.

Por aí se vê que é a sociedade, são os movimentos ativistas que têm de ir para a linha de frente

Com isso, o Ministério renunciou vergonhosamente à sua missão de formular e coordenar uma estratégia nacional de recuperação, viabilização e avanço ecossocial de nossas cidades. Dilma Rousseff, ao contrário do que garantiu em campanha, não reconduziu o Ministério ao seu leito original, jogando no lixo o compromisso assumido, naquele ano de 2010, com a promoção de uma grande reforma urbana nacional. De lá para cá, ela manteve o Ministério das Cidades como espaço de corrupção e podridão política. Por aí se vê que é a sociedade, são os movimentos ativistas que têm de ir para a linha de frente. O Brasil, mais uma vez, vê-se obrigado a acontecer à revelia do Estado. Por isso mesmo, para caminhar com lucidez, é bom que os ativistas não se esqueçam da sábia advertência de John Dewar, o inventor da garrafa térmica: nossas mentes são como paraquedas – só funcionam quando estão abertas.

c:Não são todos os que veem a perspectiva multiculturalista de afirmação de diferenças irredutíveis como algo essencialmente bom, acusando aí a perda do ideal moderno de igualdade universal. O que você pensa da questão? Acha que as agendas particulares dos movimentos ativistas podem levar a uma diluição e esfacelamento da perspectiva de transformação da sociedade/cidade no Brasil de hoje?

A.R.:O multiculturalismo é uma nova modalidade, supostamente progressista e libertária de apartheid. Um apartheid que se dá na dimensão simbólica da existência social. Quer eliminar do mapa o que James Boswell via como uma virtude maior do viver em cidades, que é a possibilidade de mesclar culturas e experiências. Porque, no horizonte geral da cultura, o multiculturalismo opõe-se às misturas, às interpenetrações e amálgamas, argumentando que é preciso assegurar o desenvolvimento independente e separado de cada comunidade, de modo que ela possa permanecer sempre idêntica a si mesma, vivendo numa espécie qualquer de autismo antropológico. O exemplo extremo disso esteve no apartheid sul-africano e acho muito estranho que agora me venham com essa conversa isolacionista, segregadora, sob o manto do politicamente correto e do socialmente avançado. Não é. E do autismo antropológico ao autismo político, o passo é curto. Tudo bem que existam diferenças irredutíveis entre diversos movimentos ativistas, mas essas diferenças não implicam na abolição da possibilidade de que se construa uma narrativa comum, no sentido da transformação da sociedade e da vida urbana.

O que é preciso é saber construir a perspectiva de uma práxis mobilizadora geral que, ao mesmo tempo, tanto respeite quanto atravesse as particularidades e os particularismos

O que é preciso é saber construir a perspectiva de uma práxis mobilizadora geral que, ao mesmo tempo, tanto respeite quanto atravesse as particularidades e os particularismos. Tecer essa narrativa comum é fundamental, senão não seremos capazes de transformar nada. Por isso mesmo, temos de tentar vencer o isolamento e procurar atar as pontas de diversas manifestações que questionam a imagem vigente e o projeto hoje dominante de cidade. A propósito, costumo dizer o seguinte: se a própria identidade pessoal é muitas vezes múltipla, uma mesma pessoa pode ser ao mesmo tempo bissexual, ambientalista, judia, maconheira e ligada ao Movimento Passe Livre, por exemplo, e diversos gestos contestadores entrelaçam-se para constituí-la, tanto específica quanto simultaneamente. Não há como negar que o mesmo vale para os movimentos ativistas, que observação semelhante pode ser feita também em relação ao conjunto das manifestações citadinas de caráter contestador.

Devemos considerar, assim, que diversos movimentos urbanos (feministas; contra a discriminação racial; pelos direitos LGBTs; pelo transporte público gratuito; pela preservação do patrimônio construído ou de áreas verdes; pela legalização da maconha; de combate à poluição; dos sem-teto etc.) podem ser irredutíveis uns aos outros, mas é verdade que podem também encontrar pontos em comum – do plano das reivindicações aos projetos gerais de cidade, passando pela identificação de adversários às posturas transformadoras – desde que estejam dispostos a procurá-los. Porque, para seguir adiante, precisaremos ter agendas particulares dentro de uma perspectiva comum de transformação, que deve ser radicalmente democrática, ainda que genérica e vaga.

c:Qual é, na sua opinião, a grande agenda de transformação para as cidades brasileiras hoje?

A.R.:Costumo sempre me lembrar do velho Aristóteles. Ele dizia que a humanidade criou a cidade para viver, mas que permaneceu nela por desejar viver melhor. Vale dizer, passamos a viver em cidades porque era o modo mais eficaz de protegermo-nos, garantir abrigo, água e comida, quando deixamos de andar em bandos nômades de caçadores-coletores e pudemos nos assentar em núcleos de gentes, graças em princípio ao incremento das atividades agrícolas. Mas permanecemos nas cidades, porque nelas a vida humana seria ordenável num patamar mais elevado. E o que penso é que, apesar de hoje estarmos mergulhados na maior crise urbana de nossa história, não devemos perder de vista esta leitura aristotélica, até porque somos quase todos urbanistas e o campo, em seu sentido tradicional, acabou – existe somente na ficção regionalista das décadas de 1930-1940. Então, Aristóteles ainda norteia.

A grande agenda transformadora é fazer com que as nossas cidades funcionem realmente como cidades, no sentido pleno do termo. Chegamos, a propósito, a definir um elenco de coisas que classifico como consensos subversivos. Porque são aspectos hoje consensuais, quase unânimes – como a necessidade de reduzir a emissão de CO2, preservar reservas vegetais, investir em energia limpa etc. –, mas, ao mesmo tempo, esses consensos são subversivos porque, no momento em que forem levados à prática, o país vai conhecer uma transformação urbana como nunca viu, tanto profunda quanto espetacular. Podemos então montar a agenda transformadora em cima desses consensos subversivos.

A diferença, hoje, é que a cidade ideal pode simplesmente se tornar uma cidade necessária em função da sobrevivência da espécie

Além disso, não podemos nos esquecer de que todos nós carregamos um modelo de cidade ideal na cabeça, por mais implícito e fragmentário que seja. Toco sempre nessa tecla. Nossa visão da cidade é sempre normativa. Quando uma pessoa acha um absurdo algo que estão fazendo em seu bairro, ela já se coloca no campo da normatividade. Mesmo o planejamento urbano considerado científico traz embutida uma teoria ou ideologia normativa das configurações citadinas. E ter uma visão normativa da cidade é ter pelo menos um esboço de cidade ideal na cabeça. Nós nunca vamos deixar de sonhar com cidades ideais e de procurar meios e modos para concretizá-las. A diferença, hoje, é que a cidade ideal pode simplesmente se tornar uma cidade necessária em função da sobrevivência da espécie. Já estamos nesse caminho, obrigados a promover o casamento da ecologia com a tecnologia de ponta.

Repito aqui o que disse numa conversa recente na FLIP, em Paraty. Na verdade, não há desastre algum que esteja ainda a caminho: a merda, nós já fizemos. Agora, é batalhar para tentar remediar a idiotice planetária que cometemos. Mas nada de baixar a cabeça, jogar a toalha, escorregar no pessimismo e muito menos naufragar entre a teatralidade blasé e o niilismo. Temos de ter uma atitude ao mesmo tempo crítica e jovial diante do desastre, para, assim, prosseguir no combate, com as nossas melhores, mais vivas e mais generosas energias.

edição atual

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Tendo como tema ‘O corpo e a cidade’, esta quinta edição da revista Celeuma apresenta um novo projeto editorial e gráfico. No foco principal da discussão estão as diversas formas de uso do espaço urbano, questão que tem ganhado centralidade no debate político contemporâneo. De que maneira relacionar os diversos modos de ativismo na cidade hoje, conduzidos pela sociedade civil, em paralelo à atuação “oficial” do Estado? Como podemos pensar em diálogos críticos e criativos entre representantes das esferas pública e privada em prol de um bem urbano coletivo e comum? Como se reelabora a noção de “público” hoje?

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Antonio Risério
Bárbara Wagner
Caroline Rodrigues
Claire Bishop
Eucanaã Ferraz
Guilherme Pianca
Guilherme Wisnik
João Bandeira
José Guilherme Pereira Leite
Júlia Buenaventura
Limarina D’Império
Luiz Fabio Antonioli
Manuela Costalima
Marília Jahnel de Oliveria
Milton Machado
Natália Alavarce
Pablo Saborido
Patrícia Bertucci
Terreyro Coreográfico
Thiago Carrapatoso
Valentina Tong
Walter Rego
Antonio Risério
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entrevista com Antonio Risério por Guilherme Wisnik

Escrevendo sobre as cidades brasileiras de tempos atrás, Gilberto Freyre observou que a rua e o sobrado eram inimigos. As mulheres, em especial, viviam confinadas dentro de casa. Mas esta é uma meia verdade, aplicável apenas aos segmentos sociais privilegiados. Escravos, ex-escravos e pobres livres, de ambos os sexos e de todas as cores, viviam nas praças e nas vias públicas de nossas cidades coloniais. De qualquer sorte, datam somente da segunda metade do século XIX, da ação abolicionista, os primeiros comícios de nossa história, a propaganda política feita em praça pública.

João Bandeira
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texto e fotos por João Bandeira

A rua é um rio, o bairro, um mar. Sendo assim, chega-se por escada estreita até o salão modestamente mobiliado e semelhante nisso a outros tantos na área, mas na certa bastante normal se você é dali ou pelo menos se está sempre por ali. O mesmo vale para a televisão, dessa vez desligada, os desenhos impressos no cardápio e, pelas paredes, os ícones de lugares muito distantes do endereço sobre a porta de entrada lá fora. Da mesa dá para ver, por exemplo, a foto de uma montanha com famosas ruínas pré-colombianas, e sobre ela uma travessa acomoda bem outra verdadeira montanha de peixe cru saborosamente temperado que, com pequenas variações e acompanhado do suco de chicha morada recomendado pelo garçom, é o que quase todo mundo está comendo.

Marina D'Império, Natalia Alavarce e Pablo Saborido
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Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Guilherme Pianca
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por Guilherme Pianca

Mesmo sendo longínquo o período em que o ribeirão Anhangabaú corria livre em seu vale e era chamado de "água da face do diabo" , as dificuldades para se lidar com a área parecem perdurar como um espectro. Local de inúmeros projetos e intervenções no século XX, nos últimos meses o vale do Anhangabaú voltou à pauta de debate por conta do projeto de requalificação e reurbanização proposto pela atual gestão da prefeitura.

Marília Jahnel
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entrevista com Marília Jahnel por Natália Alavarce e Thiago Carrapatoso

É significativo que o conceito de “direito à cidade” esteja hoje materializado em uma divisão governamental. Marília Jahnel de Oliveira, coordenadora de Promoção do Direito à Cidade na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, conversou com a Celeuma sobre os princípios norteadores das políticas dessa divisão, que traz no nome uma referência explícita ao filósofo francês Henri Lefebvre. Nessa conversa, vislumbramos brevemente os desafios de estar na posição de representante do povo, lidando com a infinidade de conflitos existentes na imensa capital.

Terreyro Coreográfico
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por terreyro coreográfico

TERREYRO COREOGRÁFICO dá nome a uma encruzilhada em que confluíram coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, músicos, filósofos e poetas - em coro - na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Pensar o público para além da dialética público x privado. Pensar o público sem a baliza do privado. Trabalhar a arquitetura através de um pensamento coreográfico no sentido de transmutar terreno em TERREYRO. Também dá nome à primeira manifestação da encruzilhada, ao seu primeiro projeto arquitetônico-coreográfico, realizado no baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, entre as ruas Major Diogo e Abolição, no bairro do Bixiga, São Paulo, abrindo caminho para o projeto Anhangabaú da Feliz Cidade.

Carolione Rodrigues
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por Caroline Rodrigues
ilustração Walter Rego

Olhar bem de perto olho dela é laranja, captando tão longe açúcar e sal; o forró onde tem ela está; o corpo tomba iogue pros braços; nesse caso são patas: quatro dedos cada uma. Ela vem: a mesa os velhos, sorriso baralho barriga, amendoim amolecido a pedra quente ela assim tem o que quer. As partidas a cabeça acompanha, pinica o monte do morto a ver se ressuscita, e pra quando jogam pipoca ou pra quando espantam pé ou copo tão duros na mesa sua cara é a mesma: nenhum medo da morte.
De longe nessa praça um homem grande usando calça finaliza a construção a arapuca fantasma: um caminho de sal, um rei de paus na portinha, um forró no radinho. Joga nela bolotinha amendoim não acerta mas o ruído salgado ela desvia da partida e vai bicar - não sem antes olhar de onde veio se tem mais.

Valentina Tong
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Barbara Wagner
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Em 2014, durante a Copa do Mundo, Bárbara Wagner participou do projeto Offside Brazil, lançado pela Agência Magnum em parceria com o Instituto Moreira Salles. A série de imagens produzidas nessa ocasião – que mostramos, aqui, em parte – retrata momentos cotidianos de integrantes do movimento Ocupe Estelita, acampados debaixo de viadutos do cais Estelita, no Recife. Os ativistas protestavam contra a execução do projeto imobiliário Novo Recife, que ambiciona a dita “revitalização” do antigo Cais José Estelita por meio de uma proposta excludente e asséptica. Congregando os anseios da sociedade civil, e afrontando de forma importante os interesses exclusivistas da especulação imobiliária, o movimento Ocupe Estelita se tornou central no quadro do novo ativismo urbano hoje no Brasil.
Claire Bishop
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por claire bishop

1. O espetáculo hoje
Uma das principais palavras usadas pelos próprios artistas para definir suas práticas de engajamento social é “espetáculo”, frequentemente invocada como a entidade à qual a arte participativa opõe-se, tanto artística quanto politicamente. Ao avaliar as motivações dos artistas para voltar-se à participação social como estratégia em seus trabalhos, encontra-se repetidamente a mesma reivindicação: o capitalismo contemporâneo produz sujeitos passivos, de pouquíssima atuação ou empoderamento.

Guilherme Wisnik
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deriva em Madri por Guilherme Wisnik

Em julho de 2010, participei como professor convidado de um workshop urbanístico em Madri, como parte da excelente exposição Desvíos de la deriva, no Museu Reina Sofía, curada por Lisette Lagnado. A exposição focava uma série de projetos “utópicos” criados no Brasil e no Chile durante os anos 1960 e 70. Intitulado “La deriva es nuestra”, o workshop (taller, em castelhano) tinha como tema a deriva, isto é, a proposta de leitura e apropriação do espaço urbano através da subjetividade e do acaso, na mão contrária das visões pragmáticas e funcionalistas da cidade.

Julia Buenaventura
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por Julia Buenaventura

O melhor lugar para visitar a obra de Gordon Matta-Clark, intitulada Propriedades Reais: Bens Fictícios, é o website do Departamento de Finanças da Cidade de Nova York. Lá, o interessado vai encontrar as escrituras, a história dos lotes e os mapas. Só faltam as fotografias dos terrenos tiradas pelo artista. Porém, nessa obra, as fotos são mais um anexo do que qualquer outra coisa.
Explico-me. No outono de 1973, Gordon Matta-Clark acompanhou sua amiga Alanna Heiss ao Hotel Roosevelt em Manhattan, onde ocorria um leilão em que a cidade de Nova York oferecia propriedades que retornaram ao Estado pelas mais diversas causas: falta de pagamento de impostos, mortes ou expropriações.

José Guilherme Pereira Leite
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por José Guilherme Pereira Leite

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Se é de corpos e cidades que devemos falar, assim começa o laudo da perícia médica sobre o assassinato do poeta, romancista, cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), espancado até a morte em 2 de novembro de 1975, mesmo dia em que foi encontrado o seu cadáver, próximo ao Idroscalo di Ostia, “onde a água do Tibre se salga”

Patricia Morales Bertucci
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por patrícia morales bertucci

A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando.
Durante a madrugada de 15 de julho de 1980, alguns jovens reuniram-se para intervir plasticamente no túnel que faz a ligação das avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Com mais de 100 metros de plástico polietileno vermelho, eles foram costurando-o entre os vazios superiores do túnel e o piso de baixo, formando uma grande escultura lúdica.

Manuela Costalima
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As grandes cidades fazem-se de uma combinação constante entre desenho, planificação, vontade de ordenamento do espaço e suas apropriações irregulares, adaptações provisórias que acabam por se consolidar; desvios que o tempo e a ocupação imprimem na grelha urbana.
Thiago Carrapatoso
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por thiago carrapatoso

Ei, você, deixa eu te perguntar uma coisa: já parou para pensar no que é uma cidade? Não digo na parte estrutural, com suas ruas, prédios, arquiteturas e macrorregiões, mas sim no que é a cidade em si, para que ela serve, qual o propósito de nos reunirmos em conglomerados de moradias e trabalhos. Já parou para pensar sobre isso? E me diga: quantas vezes você já viu alguém reclamando do aumento da tarifa de transporte público, do trânsito que parece não parar de crescer, dos alagamentos constantes até fechar o verão, da violência cada vez mais assustadora chegando diariamente pela luz invasiva da televisão, do custo de vida absurdo, do aumento constante do metro quadrado de cada trecho daquilo que chamamos de cidade?

Milton Machado
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por milton machado

Eucanaã Ferraz
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por eucanaã ferraz
ilustração walter rego