thiago rocha pitta

O campo acampa, 2012
técnica mista
dimensões variáveis

textos ciclo expo

thiago rocha pitta
o campo acampa

Em O campo acampa (2012), Rocha Pitta amplia a relação entre criação de um fenômeno artístico e natureza. Nessa obra, o processo de produção artística não se dá por um meio mas é ele próprio – podendo também ser vislumbrado como uma “escultura de paisagem” - que é “produzido” pela natureza. Há um processo duplo (e contrário) na aparição da natureza: enquanto, muito lentamente e de forma delicada, a barraca é preenchida e camuflada pelo tempo e pelo crescimento da vegetação - e portanto a estrutura torna-se portadora de uma nova “pele” composta por uma camada de paisagem -, as suas dobras rígidas e estáticas impedem algumas ações exteriores da natureza sobre ela. Imune ao vento, sua constituição como um sólido, uma rocha, revela mais uma vez a sua proximidade, metafórica, com a natureza.

A barraca como símbolo do deslocamento constante, de um nomadismo, suspende a sua qualidade transitória e finalmente se fixa e se adequa ao mundo, e mais do que isso, é refém dessa circunstância, porque é constantemente (de)formada pela natureza. Perde o seu comprometimento utilitário – de guardar uma pessoa – mas não a qualidade de abrigar. Sua função permanece (ser o lugar da morada) mas o “morador” passa a ser outro, agora é a natureza quem habita e doma esse lugar. Como a obra dialoga com uma condição de tempo-duração, é digno de atenção observar, ou no caso imaginar, já que o período da exposição será curto para termos contato com essa transição, que o que poderia ser qualificado como utopia, isto é, deslocar uma paisagem para o interior de um espaço que tradicionalmente tinha a natureza como cercania e não “hospedeira” (e logo após esse movimento ser parte da própria natureza), transforma-se em um dado concreto nessa obra.

Felipe Scovino