tatewaki nio

Escultura do inconsciente 46, 2012
fotografia
80 x 98,5 cm

textos ciclo expo

tatewaki nio
acima só o céu

O familiar e o estranho convivem nas imagens que Tatewaki Nio nos oferece da cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo em que reconhecemos a paisagem, identificamos alguns prédios, construções, traços da sinalização urbana, grafites, pichações e outras marcas que recobrem as superfícies da cidade – as fotografias nos surpreendem.

Há algo muito particular no ponto de vista que o artista assume, na distância que toma para fotografar a paisagem urbana. Embora as fotos sejam feitas com o tripé apoiado no chão e, portanto, sob a usual perspectiva dos pedestres, daqueles que percorrem a cidade caminhando, elas ficam em um meio termo entre o panorama e o detalhe – este último enfatizado pela nitidez espantosa das imagens. Localizam-se entre a visão rotineira do espaço, que se apropria dele pelo uso, e a contemplação de uma vista sui generis.

Surge uma cidade cheia de contrastes: ostentação e pobreza, planejamento arquitetônico e ocupação caótica, o velho e o novo lado a lado. Camadas de poeira, fuligem, intervenções gráficas que se sobrepõem criando um espaço visualmente saturado. E, mais adiante, áreas ociosas, empenas cegas, terrenos abandonados. As chaminés de fábricas demolidas são os testemunhos mais frequentes nesta série das muitas transformações incompletas da cidade. Ao lado delas, figuram véus que, instalados nas construções quando se encontravam em obras, nunca foram retirados, e casas parcialmente derrubadas em que ainda se vêem azulejos, tijolos e blocos de concreto, recobrindo paredes que outrora foram banheiros, cozinhas, dormitórios e salas com amplas janelas.

Há algo de definitivamente particular na distância que Tatewaki Nio toma para fotografar a cidade. A distância de alguém que nasceu no Japão e vive em São Paulo há cerca de 15 anos. Alguém que busca familiarizar-se com uma cidade que não é desde sempre a sua. Uma cidade que se recusa a ser completamente apreendida, pois, entre um instante e outro, se reconfigura e já não é mais a mesma. A impermanência e a falta de continuidade são seus traços mais marcantes. A resistência que ela oferece ao fotógrafo é, assim, a chave de compreensão possível dessas imagens.

Thais Rivitti