rodrigo andrade

Paisagem de inverno com estradinha 2, 2013
óleo sobre tela sobre mdf
90 x 160 cm

Estrada de terra com baobás no fim da tarde, 2013
óleo sobre tela sobre mdf
40 x 70 cm

textos ciclo expo

rodrigo andrade
pinturas de estrada

A pintura recente de Rodrigo Andrade é marcada pela tensão entre uma reprodução detalhista, quase fotográfica, de um espaço (geralmente uma paisagem) e os blocos espessos de tinta, que denunciam a materialidade do suporte. O quadro e o espaço que nele aparece são reais, mas as duas realidades não coincidem. Defasagens entre ilusionismo e materialidade não são raras na pintura moderna. Em geral, se dão como alternativa: afastamo-nos para que as pinceladas se fundam na imagem, aproximamo-nos para que a imagem se desfaça nas pinceladas. Isso não acontece aqui. Quanto mais nos aproximamos, mais os detalhes se tornam nítidos; ao mesmo tempo, a matéria se torna mais gorda, quase afundamos nela. A um palmo da superfície, a paisagem ainda está lá, mas não a ilusão de vazio: apenas uma substância densa. O espaço não é apenas representado pela tinta, ele é a tinta.

Os trabalhos de uma fase pouco anterior eram noturnos, e a tensão entre figuração e matéria nascia do contraste entre escuridão profunda, representada por blocos homogêneos de tinta preta, e áreas iluminadas, em pintura matizada e rasa. Entre as duas situações havia um salto, marcado pela distância entre a superfície da tela e, dois ou três centímetros à frente, a dos blocos de tinta. As novas obras são todas paisagens diurnas. A transição entre ralo e denso é mediada por um degradé em que mudanças progressivas e muito leves na cor acompanham a mudança gradual da espessura. Já não há salto, mas oscilação. A escuridão é espessa por definição, a luz deveria ser impalpável. Aqui, ela é ao mesmo tempo espessa e diáfana, branco caiado e claridade difusa. De resto, é luz de pintura: os trabalhos noturnos remetiam à fotografia; essencialmente frontais, sugeriam uma iluminação artificial. Os diurnos valorizam a luz natural e retomam a composição clássica da pintura de paisagens, uma estrada em diagonal ligando diferentes planos. Hoje, pintores que lidam com a representação preferem composições frouxas, ou derivadas do enquadre fotográfico. Rodrigo, ao contrário, encara um esquema compositivo dos mais tradicionais e equilibrados. Só pode ter êxito porque a questão já não é a relação entre natureza e representação, mas entre imagem e matéria. O que vemos são formas de imagem, imergidas na pasta da tinta.

Um dos quadros marca a situação limite. Exibe apenas uma faixa de praia e um mar calmo, que no horizonte se confunde com o céu. Não haveria figuração, não fosse por traços de espuma. Não há profundidade porque não há fundo: o foco é infinito; o espaço, ilimitado; tudo é plano. A tinta se confunde com o espaço, como se confundem mar e céu. Não há distinção nítida entre realidade e representação, mas há polarização. O mundo é um degradé.

Lorenzo Mammì

Consulte material bibliográfico sobre este artista na Biblioteca Gilda de Melo e Souza