pierre huyghe









This is not a time for dreaming, 2004
vídeo transferido de filme 16 mm
24 min
acervo Centro Georges Pompidou

textos ciclo expo

pierre huyghe
não é tempo de sonhar

Convidado a realizar um trabalho artístico em comemoração aos 40 anos do edifício do Carpenter Center for the Visual Arts na Universidade de Harvard, o artista multimídia francês Pierre Huyghe criou um teatro de marionetes, cujo registro filmado se chamou This is not a time for dreaming (Não é tempo de sonhar).

Projetado entre 1958 e 1962, o Carpenter Center é o único edifício de Le Corbusier nos Estados Unidos, e sua encomenda se deve à insistência do arquiteto catalão Josep Lluis Sert, então reitor da Faculdade de Design de Harvard. Para Le Corbusier, no entanto, a proposta remexia sua antiga síndrome de rejeição em relação aos norte-americanos, sentida em razão da pouca penetração das suas ideias no país e do abandono do seu projeto para o edifício da ONU em Nova York, em 1947.

Se Le Corbusier foi o maior arauto da modernidade arquitetônica, a nação mais moderna do mundo no século XX nunca lhe deu a devida importância. Ocorre que a tentativa feita por Sert de reparar esse desencontro histórico em Harvard, já no final da vida do mestre franco-suíço, trouxe novamente à tona velhos fantasmas, envolvendo longas e penosas negociações entre o arquiteto e a instituição na definição das proporções e da organização geral dos espaços do edifício. Tomando como mote o turbulento processo de criação desse projeto, Huyghe realiza um trabalho metalinguístico em que mistura suas próprias dúvidas criativas às de Le Corbusier ocorridas 40 anos antes, focalizando a questão dos limites entre o sonho criativo e as pressões da realidade. Nesse sentido, o teatro de marionetes lança luz sobre a ideia de representação, explicitando a consciência de que todos nós representamos papéis e somos, de certa forma, guiados pelas mãos de outros.

Le Corbusier imaginou o Carpenter Center, cortado diagonalmente por uma rampa curva, como o anúncio de uma arquitetura acústica, essencialmente rítmica. Huyghe, em resposta, criou uma trilha sonora para o filme com músicas de Edgard Varèse e Iannis Xenakis, cujas composições ambientavam o Pavilhão Philips, feito por Le Corbusier e pelo próprio Xenakis para a Feira Internacional de Bruxelas, em 1958. Entre sonho e pesadelo, o vídeo de Huyghe propõe tanto uma reflexão sobre os impasses da criação artística, quanto sobre a reatualização crítica desses impasses ao longo do tempo.

Guilherme Wisnik