paulo monteiro

sem título, 2012
óleo sobre tela
250 x 200 cm

Vermelho coisa, 2012
óleo sobre tela
300 x 200 cm

fotos: Ding Musa

textos ciclo expo

paulo monteiro
coisa superfície

Mesmo que de modo menos evidente do que em certas aquarelas e num flip book realizados há não muito tempo, alguma coisa das primeiras produções de Paulo Monteiro e sua intimidade com o mundo das histórias em quadrinhos resiste nas novas pinturas e peças de ferro apresentadas no Maria Antonia.

Com um misto de gaiatice e estranhamento, formas de um repertório bem definido e restrito parecem desde sempre prontas a descansar depois de cada passo, a emergir ou submergir aqui e ali, em sensíveis variações de escala e efeito. Nas telas, por exemplo, o que era uma lingueta pode se desdobrar numa espécie de ovo, espichar-se como verme, fechar-se em cicatriz. Imagens às vezes mais talhadas que pintadas, sucedem-se em zonas maiores de cor, mas de número também reduzido, espaços analogicamente mais neutros. A não ser que se queira ver neles mares, campos, montes, nuvens. Nada impede também que todos eles sejam reconhecidos e descritos em chave mais abstrata.

Seja como for, vazio ou ferida, linha ou sutura, bicho ou área delgada de cor, lago calmo ou cobertura homogênea de tinta, céu ou textura mais rala, calço num bloco de ferro ou pé de sapato sob a calça – tudo em que se põe a vista reaparece não muito longe. Quase igual ou um tanto modificado, mas nunca demais. Com frequência, só o suficiente para já ser outro em meio ao restante. Um grumo esticado de tinta ora é fronteira entre matizes que se medem na tela, ora assinala os limites do suporte, ora é como se já fosse se esgueirar para dentro dele. Uma área larga percebida como fundo exibe, num rasgo, outro um pouco mais fundo. O que vinha de fora acena agora de dentro. O tarugo metálico mostra um pouco mais a língua. Das telas às esculturas, é como surpreender, por um momento congeladas, protonarrativas do que pacientemente se dedica ao gosto de começar de novo e de novo.

Já se sabe que os grandes relatos de justificativa e organização da vida perderam seu poder de persuasão. Nem por isso nossa antiquíssima necessidade, para não dizer mania, de narrativa se dissipou. Aliás, bem instrumentalizada, cresce sem parar, como uma praga imensurável de significações encadeadas. Em boa parte, fábulas de expansão descontrolada da individualidade. As protonarrativas desses trabalhos de Paulo Monteiro, em seu movimento de intercâmbio ou silenciosa solidariedade, seguem mais interessadas em descobrir maneiras de contar com pouco. Como a dizer, absurda ou obviamente: no horizonte de um início, tudo está sendo ainda.

João Bandeira