patrícia osses

Vigne-mère [Videira-mãe], 2012
fotografia sonora (back-light, reprodutor de som e caixas)
165 x 110 cm
vozes: João Romantini, Samuel de Jesus e Rodrigo Mercadante
col. da artista

agradecimentos
Damien Nicolas, Thomas Rohrer, Julia Vidile

textos ciclo expo

patrícia osses
vigne-mère

Esta nota trata dum ar mórbido. – No século XIV, a Europa medieval padecera dos males de sua maior epidemia: a Peste Negra. Paracelso (1493-1541) foi Médico da Peste, assim como Nostradamus (1503-1566). Nos interessa aqui a biografia do francês Charles de L’Orme (1584-1678), médico pessoal de vários membros da família real da Casa de Médici; autor das seguintes teses: Convém prescrever os mesmos remédios aos amantes e aos dementes?; A vida dos reis, dos príncipes e dos grandes homens é menos exposta aos males e mais longa comparada a das pessoas do povo e dos camponeses?; Pode-se preparar um veneno que mate num tempo determinado?

Por volta de 1619, o doutor de L’Orme propõe uma solução ao enigma da peste. Como medida sanitária, imagina uma indumentária para o Médico da Peste. Um poema da época retrata o traje. A tradução diz, literalmente: “Em Roma, o médico aparece, / Quando por seus pacientes é chamado, / Em lugar pela praga assombrado, / Seu chapéu e capa, da nova moda, / São feitos de linóleo, em tom escuro, / Seu chapéu com lentes de cristal é desenhado, / Sua lista com os antídotos todos elencados, / Que falte um pouco de ar não pode fazer mal, / Nem causar ao médico alarme, / O bastão na mão deve servir para mostrar / Seu nobre comércio onde quer que vá.”

Talvez Doktor Schnabel von Rom [Doutor Bico de Roma], gravada por Paul Fürst em 1656, por mérito de seu título, tenha sido a ilustração mais popular nos compêndios de medicina (Cf. com o frontispício duma versão de 1841 do Traité de la peste recueilli des meilleurs auteurs anciens et modernes (1721), de Jean-Jacques Manget). Por onde passava, a veste trazia o terror, pois era um signo da morte. Tal máscara de bico, nas celebrações carnavalescas, prenuncia o sermão da Quarta-feira de Cinza (memento mori): “Lembra-te, homem, que és pó e hás de tornar a ser pó” (Gn. 3:19); lembrança outra traz a ave fênix?

Antônio Ewbank