nuno ramos

cal, 1987
vista geral da exposição
Inap-Funarte, Rio de Janeiro
foto: Eduardo Giannini Ortega

textos ciclo expo

nuno ramos
cal 87

CAL PANO PAU Pó em toda parte. Ou talvez: para cada parte. Mas não qualquer poeira. Uma brancura difusa que menos brilhava do que amortecia. Era óxido de cálcio, ou simplesmente cal, depositado de modo variado, por entre paus e panos, dando existência meio precária, e no entanto decidida, a algumas peças.

Assim poderia ser evocada a exposição de Nuno Ramos, em 1987, no Rio de Janeiro, na qual ele deixava para trás a pintura de extração neoexpressionista, que realizava de início, junto aos demais artistas da Casa 7. Os trabalhos expostos então no Inap-Funarte jamais foram mostrados juntos de novo. Vistos retrospectivamente, pertencem a uma família mais silenciosa na obra de Nuno, de formalização concisa e, por assim dizer, cabal (p. ex., Matacão, Duas casas ou Balada) – sem abrir mão do corte sempre agonístico.

Como se disposto a começar de novo, nessas ‘peças de cal’, Nuno passa a lidar com a escansão de um vocabulário mínimo da tridimensionalidade na arte, usando materiais de construção e operações básicos: amontoar, empilhar, dobrar, envolver, misturar, pulverizar. A memória dos gestos empregados circula pelas peças prontas, que, ao mesmo tempo, põem em movimento uma cadeia de simbolismos também básicos: do histórico de cada material e dos contrastes entre suas propriedades (p. ex., fragmentação do pó versus continuidade mole do pano versus solidez da madeira); das próprias formas resultantes e dos títulos a elas atribuídos (Monte, Coluna, Vela, Leque, Um ano); ou mesmo do impulso à repetição. A cadeia é reforçada agora por um par de colunas, feitas de madeira calcinada e cinzas, incluídas nesta remontagem da exposição de 87, em que já havia outras duas de madeira e cal. Concebidas na mesma época mas realizadas mais recentemente, são como um duplo negativo das primeiras.

O conjunto das peças pode, assim, remeter a concepções arcaicas sobre tudo o que existe, cujo princípio estruturante e unificador seria a luta infindável dos opostos. Ou instaurar, como num velho livro do mundo, a disseminação de analogias, por similaridade direta ou inversa, em aproximações que tenderiam à indiferenciação, à completa e mortal igualdade. Pode ser. Mas fosse apenas isto, a cal em toda parte prometeria ir, aos poucos, saneando e apagando tudo. Entretanto, o que nos é oferecido por esse conjunto de peças não chega até lá. O agora do trabalho, inscrito e rememorado nelas, continua vibrando de muitas maneiras na extensa obra de Nuno Ramos. E poderia ter por cifra uma frase que aparece isolada em seu primeiro livro, Cujo: “A pausa agitada de uma coisa não ser outra”.

João Bandeira
curador

Consulte material bibliográfico sobre este artista na Biblioteca Gilda de Melo e Souza