Marcone Moreira

Marcone Moreira - Banzeiro (Galpão das Artes, Marabá)
Banzeiro, 2010
instalação
dimensões variáveis

textos ciclo expo

Marcone Moreira
Banzeiro

O trabalho de Marcone Moreira em exibição apresenta uma série de elementos de um conjunto que está ausente. Forma um desenho invisível de algo que só se torna completo a partir da imaginação e da memória. Esse procedimento, comum a outros trabalhos seus, mescla duas vertentes centrais da tradição plástica brasileira: a atenção às relações formais, caras ao pensamento construtivo, e o saber artesanal, constatado no dia-a-dia da produção de objetos utilitários nos quatro cantos do país, que interessou artistas e críticos que interpretaram as especificidades da arte moderna no Brasil e enxergaram confluências entre os dois caminhos.
No Maria Antonia, o artista cria curvas ascendentes no espaço, que ganham corpo através do denso e rústico material em que são desenhadas, pelo corte da moto-serra e pelo adocicar do enxó, que lhe dá acabamento. Num processo de progressiva concretização, aquilo que era projeto, desenho mental, torna-se matéria, ganha um corpo específico. As linhas imaginárias, desenhadas na lembrança do artesão e arranjadas pelo artista, passam a ter textura, peso, cheiro, e a preencher um espaço real. Carregam, para além de seu aspecto de geometria ideal – uma curva no espaço – a memória de um fazer, um saber prático, o caráter daquilo de que são feitas. Seu material é a pequiá, madeira resistente à água por sua trama de fibras firmemente entrelaçadas. Sua forma é aquela conhecida pelo artesão de barcos: são cavernas, entalhadas do modo necessário a dar a curvatura correta da madeira para que as embarcações se estabilizem e deslizem na água. Agregadas e dispostas pelo artista no espaço de exposição, fazem agora o percurso inverso, que vai do material ao mental – evocação do movimento revolto das águas, o banzeiro, que agita o rio e pode até impedir a navegação. Mas nesse caminho, trazem consigo aquilo que não pode ser reduzido ao conceito, à idéia: a experiência compartilhada, síntese do Brasil.

Fernanda Pitta