Luiza Baldan

série Pinturinhas, 2010
impressão a jato de tinta s/ papel de algodão
85 x 110 cm

textos ciclo expo

Luiza Baldan

Embora capturem lugares marcados por uma lenta ação do tempo e pela não intervenção de grandes acontecimentos, as imagens de Luiza Baldan não parecem confrontar espaços que se ofereçam de todo vazios, aos quais tivesse aderido um sentido de abandono ou isolamento (outras acepções desse “vazio”). Há nesses trabalhos uma disciplina de distanciamento com relação aos objetos, o que se traduz na figuração de espaços convidativos à projeção da visão, disponíveis a serem adentrados, para o que pequenos elementos (uma caixa de correio, uma poltrona) garantem também uma experiência mínima mas suficiente de escala.
De fato, uma insistente visão não cessa de desvendar suas imagens, de descrevê-las com exatidão, e nesse sentido essas obras parecem se comportar, quem sabe, ao modo de uma determinada pintura holandesa, que se compraz nos detalhes. Mas, à diferença daquela pintura – que abarca os elementos que a compõem como as partes visíveis de um ambiente ao mesmo tempo revelado e escondido –, os trabalhos de Luiza se esmeram na descrição ponto a ponto das imagens, o que acaba por conferir a elas certo caráter atmosférico, que, porém, não surge da apreensão difusa dos seus elementos, e sim da difusão dos elementos mesmos, com a nitidez de suas texturas, cores, com a singularidade de cada um.
Resulta disso que muitas dessas fotografias se ofereçam com um certo grau de saturação, em que cada ponto da imagem é igualmente visível, descrito, deslindado em superfície. Insinua-se uma interioridade, sim; e é ela que parece preencher, habitar as imagens. Trata-se, no entanto, de uma interioridade à qual não se tem total acesso: ela é marcada por um tipo de visão que se esforça em contemplar os objetos, as qualidades dos lugares fotografados, mas não se permite franquear completamente, retendo, afinal, algo da própria experiência de percorrê-los com minúcia, de mantê-los vivos.

Carlos Eduardo Riccioppo