joão loureiro

primeira parte do fim, 2013
projeto de instalação

textos ciclo expo

joão loureiro
primeira parte do fim

O título do trabalho de João Loureiro, Primeira parte do fim, pressupõe que o fim se dá em frações, em ao menos duas delas. Se há a primeira, deve existir uma segunda parte do fim, mesmo que ela seja a última. Isso significa que o fim não é um ponto. Se ele chegar, não é de uma só vez, mas aos poucos, em fragmentos que até podem ser concomitantes. O fim pode ser analisado, dividido e subdividido infinitamente, antes de a derradeira parte ser atingida.

Nesse trabalho, o fim não é uma finalidade, a realização inevitável de um objetivo, o clímax de um processo. A obra não se move em direção a uma conclusão, como uma flecha lançada em direção a um alvo, como um destino que há de vir, um fado. Não se trata do fim como uma fatalidade determinada pelas leis naturais a que supostamente todos estão sujeitos. Assim, Primeira parte do fim não é a conclusão, ao contrário, é o início do que talvez não tenha um arremate final.

A primeira impressão é a de que estamos diante de uma cena de fim de festa, dezenas de cadeiras espalhadas pelo chão, mesas com toalhas em diferentes alturas, uma dispersão geral no ambiente que repele o olhar. Entretanto, não é exatamente o fim da festa, a maior parte do bolo sequer foi consumida. Os cerca de 18 metros lineares de mesa revelam que, se a festa ocorreu, era uma das grandes, daquelas que comemoram cidades ou instituições que completam ao menos um centenário.

E há uma estranheza generalizada, algo de explicitamente teatral. A composição da cena revela que ela mesma é uma construção. O público visitante sente-se um pouco menor, os móveis estão uns 20% agigantados, o que retira a plena funcionalidade dos objetos e os aproxima de uma anedota. Parece que alguma coisa provocou a suspensão da ação, talvez um conflito já previsto no interior da narrativa. Mas, de fato, a única ação esperada é a chegada do público, que acaba se tornando parte do espetáculo, ou melhor, do antiespetáculo.

Estamos no mesmo palco em que o trabalho acontece e a única pista é que há uma descontinuidade na ação, uma quebra na linearidade do tempo. Mais do que a alusão a uma noção circular de tempo, em que o fim emenda no começo, há aqui simultaneidade entre o início e o fim. A peça condensa dentro de si todos os momentos do passado. Em vez de apresentar um tempo vazio, Primeira parte do fim é carregada de reminiscências, transbordando um presente que é abertura para o que ainda irá ocorrer ao redor da obra.

Cauê Alves

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