júnior suci


sem título, 2010
grafite s/ papel
22 x 22 cm

textos ciclo expo

júnior suci
necessidade do objeto

Júnior Suci é um artista que se utiliza de uma linguagem das mais fundamentais da tradição artística: o desenho. Dessa linguagem, explora duas dimensões que de certa maneira sintetizam pólos opostos: a invenção e o registro. O desenho pode ser o emblema da capacidade inventiva, projetiva, designativa do ser humano, como também ser, mais modestamente, um modo de registro dos mais imediatos e triviais. Protagonista de um fazer ou ferramenta auxiliar.

É dessa ambiguidade da linguagem que parte Suci. Seus desenhos representam ações, performances reais ou imaginárias, estabelecendo relações com coisas, que podem ser objetos ou o próprio corpo. O desenho aproximativo, hesitante, é capaz de registrar ou criar a tensão da coisa vivida e sentida no gesto. Através do desenho, Suci consegue transmitir também o poder enigmático, porque atraente e amedrontador, que certos objetos, por força aqueles às vezes mais corriqueiros, têm sobre nós.

A exposição apresenta três séries de trabalhos – uma sem título, outras duas chamadas Antes da contaminação e Objetos intocados – que tratam das questões relacionadas à ação, a um certo gesto que, por empréstimo, poderíamos chamar de investidura, de transmissão de poder, que já não sabemos mais se parte do sujeito em direção ao objeto ou vice-versa.

Pois, se na investidura do objeto pelo sujeito existe uma qualificação desse objeto, que passa a ser sujeito também dessa relação, é possível pensar que para algumas das séries possa igualmente haver uma via invertida. Vale considerar que simbolismo dos objetos é o que menos importa, já que sua carga semântica é variada, como não poderia deixar de ser nos dias de hoje. O que parece mais relevante aqui é o gesto que passa ao ato. A centelha que anima e que faz acontecer.

Fernanda Pitta (curadora)