héctor zamora

Ensaio sobre o liso e o estriado, 2010
instalação
dimensões variáveis

textos ciclo expo

héctor zamora
ensaio sobre o liso e o estriado

Um texto de Gilles Deleuze e Félix Guattari permite dizer que a operação duchampiana do ready-made desloca-o de um espaço "liso" para um "estriado". O urinol como peça sanitária própria ao banheiro masculino guarda certamente um nível de institucionalidade. Mas seu uso original e efetivo remonta a um fluxo orgânico em tese incontinente e da ordem da necessidade irracional. Já a partir do salão em que foi exposto, em 1917, a operação que dissemina e que passa a permitir a introdução de qualquer objeto industrial no campo da estética, independentemente da inviabilidade de uma apreciação formal, não parece mais poder continuar transgredindo. Corresponde a um amortecimento, uma sobreposição domesticada de estratos que permitiam, em outro tempo, contrastes e anseios por um novo equilíbrio.

Nesse seu Ensaio sobre o liso e o estriado – apresentado pela primeira vez em São Francisco, EUA, em um contexto expositivo diverso –, Hector Zamora aproxima continentes a partir de uma alusão ao sistema financeiro global – o comportamento da bolsa de valores. A variação de altura dos varais pode ser vista de diversas maneiras, claro, e levar a entendimentos diversos também. Para uma aproximação plástica, dado o nível de abstração alcançado, propõe-se o vislumbre de uma partitura para um tipo de música monumental à qual, entretanto, só os ouvidos de poucos especialistas estariam acostumados – mesmo décadas depois de sua implementação:

como um "espaço liso fortemente dirigido tenderá a se confundir com um espaço estriado", como um "espaço estriado, em que a distribuição estatística das alturas utilizadas de fato se dá por igual, tenderá a se confundir com o espaço liso"; como a oitava pode ser substituída por "escalas não oitavantes", reproduzindo-se segundo um princípio de espiral; como a "textura" pode ser trabalhada de modo a perder seus valores fixos e homogêneos para devir um suporte de deslizamentos no tempo, de deslocamentos nos intervalos, de transformações son´art comparáveis às da op art. (Gilles Deleuze e Félix Gattari, Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, trad. de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa).

Outra possibilidade de leitura vem dessa instalação, por ocasião de sua apresentação no Brasil, como metáfora do estado atual da arte contemporânea em nosso contexto: linguagens tradicionais se misturam num processo entrópico que alguns artistas/ensaístas sentem-se inclinados a reverter, independentemente de uma crítica que tende a prefixá-lo a partir de medidas formais estáveis em que investidores anônimos possam confiar.

Rafael Vogt Maia Rosa