guto lacaz

Yves Klein, 2012
madeira, livro, eletromecanismo
75 x 55 x 6 cm
110 V
foto: Edson Kumasaka

textos ciclo expo

guto lacaz
eletro livros

Às vezes nos ressentimos do fato de que nosso contato com as grandes linhas da arte moderna se dá de modo indireto, justamente por meio de reproduções em livros que tentam suprir a falta de exemplares originais em nossas maiores instituições. Nem sempre assumimos que estamos livres para sentir que qualquer obra, antes de representar um estado, foi um processo acessível mediante uma atitude menos resignada do que seguir percursos expositivos ou textos críticos.

Eletro Livros, de Guto Lacaz, é uma exposição composta por dezesseis peças construídas a partir de publicações escolhidas pelo artista em sua biblioteca pessoal.  Falam de seu gosto, com certeza. Mas seu carácter antológico não se sobressai ao movimento e ruído sutil produzido pelos motores que parecem falar que a apreciação da arte não aceita superlativos e deve ser mantida por uma observação interessada antes de se julgar erudita.  

Ao falar aqui de um artista tão envolvido com aproximações entre a arte e a ciência -- popular, que seja -- lembra-se do filósofo que afirmou que, em nossas escolas, as crianças não deveriam ser consideradas incapazes por não entenderem a fórmula H2O, quando, tantas outras propriedades da água não são sequer mencionadas. De fato, esses trabalhos de Guto não questionam o estatuto da representação em Velazquez; nem falam da cor que extrapola o limite planar e que aproxima o neoplasticismo de Mondrian de vertentes conceituais do construtivismo latino-americano por meio de coincidências entre a virtualidade da reprodução fotográfica e sua venda em bancas de jornal. Neles, para se entender Duchamp basta traduzir a expressão faire le mur, pular o muro. Já o misterioso binômio político/matérico de Beuys ecoa na inquietação mais simples: ao contemplarmos os limites ambíguos do canto das paredes de um quarto de dormir ou sala de aula em que nos sentimos presos, abrimos casualmente um livro com figuras e encontramos uma saída.

Rafael Vogt Maia Rosa