fábio miguez

série Mariantonia, 2009
impressão a jato de tinta s/ papel
110 x 110 cm

textos ciclo expo

fábio miguez
paisagem zero

Há quase 20 anos, Fábio Miguez, além de pintar, fotografa. Não há paralelismo imediato entre a sua pintura e a fotografia. Os procedimentos são independentes, e por isso mesmo se completam. A pintura afunda suas raízes no neoexpressionismo, portanto num procedimento formal que não pode ser predeterminado, mas se define progressivamente no decorrer da execução. Nos dípticos expostos aqui, essa liberdade é testada, mas não renegada, pelo embate com códigos facilmente reconhecíveis: diagramação gráfica, convenções do desenho de arquitetura, sinalização urbana, escrita. Isso não significa, porém, aderir a um sistema geral de comunicação, em que todo traço é signo de alguma coisa, e sim, ao contrário, fazer com que cada signo se torne traço, ou seja, participa de uma configuração da qual não faria sentido separá-lo, e que modifica ao mesmo tempo em que é modificado por ela. Em outras palavras: um material pop se dobra a um pensamento formal que é da linhagem do expressionismo abstrato.

Todas as fotos, por sua vez, são tomadas com luz natural, com a mesma câmara analógica e a mesma lente. A manipulação é mínima, caso raro na fotografia contemporânea. Objetos e espaços surgem como uma presença surda, mais massas do que volumes, na austeridade de um branco e preto propositalmente pouco luminoso. Imprimem-se no papel fotográfico com a rugosidade levemente irregular de uma matriz de gravura. Nunca se reduzem inteiramente à imagem, têm peso, mesmo quando se trata de vapores, pontos de luz, reflexos na superfície da lente. Nesse sentido, as fotografias parecem herdar algo da fase mais informal do artista, especialmente os quadros negros de final da década de 1980. De fato, é no balanço de duas tensões (signos que tendem ao traço; imagem que tende à matéria), e não em analogias de detalhe, que fotos e pinturas convergem.

Lorenzo Mammì