Carlos Zílio

Arquivo: Carlos Zilio 1
Tamanduá caindo, 2009
esmalte s/ tela
178,5 x 258 cm
col. particular

Arquivo: Carlos Zilio 2
Tamanduá e o tempo, 2009
esmalte s/ tela
188 x 275 cm
col. particular

textos ciclo expo

Carlos Zílio
Pinturas

Desde que voltou a pintar esse bicho, Carlos Zílio tenta fazer a mesma tela. Tal alguns escritores, que se empenham em refazer livros finalizados por eles anos atrás. O fato das pinturas sempre saírem diferentes uma das outras, pode ser tomado como uma virtude por quem vê, mas é também a imagem do artista que falhou. Isso é particularmente interessante em Zílio. Um artista de pintura desencantada, onde nem a cor espanta e as relações entre os gestos e as formas são pragmáticas. Zílio não tenta melhorar algo insatisfatório, mas encontrar um símbolo que desaparece.
Há muito, as pinturas de Zílio são desprovidas de cor. Nos trabalhos das últimas décadas, o artista reduz a qualidade expressiva da tinta. Ela não é cor, mas massa. O gesto aqui não é de espontaneidade, mas da reiteração. Algo que consegue repetir um código, mesmo que tropece deliciosamente nas falhas da mão. Mas se tratava de um vocabulário controlado, que a cada gesto sabíamos o que o artista fazia.
Em trabalhos anteriores, o artista reiterava gestos circulares. Pintava formas muito parecidas umas com as outras. Parecidas, mas não idênticas. Esses contornos se cruzavam e formavam uma trama confusa de formas. Assim, mesmo quando o esquema, a estrutura, parecia falhar, isso era simulado.
Aqui, algo parece realmente escapar de técnica tão consciente. O artista retoma uma forma que sua obra havia deixado nos anos oitenta: o tamanduá. Telas sombrias, brancas ou pretas, parecem procurar nessa ausência ou excesso de luz um fantasma. Uma aparição, que surge como um borrão na tinta. Aquele trabalho da pintura, visto como uma labuta codificada, reiterada, cotidiana, sempre conseguia construir algum sentido. Agora a codificação dos gestos da pintura, não consegue construir padrões. Tal como o sonho da razão de Goya, a técnica não encontra a figura codificada, mas produz monstros. Monstros pré-históricos.

Tiago Mesquita