bruno dunley

xerox, 2012
óleo sobre tela
30 x 24 cm

fotos: Everton Ballardin

textos ciclo expo

bruno dunley
e

A ambição de apreender/reter/lembrar o mundo esbarra no limite da linguagem. O que a leva, em princípio, ao fracasso. Podemos, porém, criar artifícios para driblar essa impossibilidade, essa frustração. Criar novas expectativas, simuladas, inventadas, como um pacto de fé.

O trabalho de Bruno Dunley se utiliza de esquemas, estruturas, códigos: esforços de organização do mundo, ressignificados em sua pintura. São imagens que remetem ao mundo visível, e dizível. Uma ambição de resumir, como na tela Xerox: conter em si todas as imagens de xerox já vistas, vontade de síntese. Uma solução diante de tantas possibilidades de escolha. Pintura como alfabeto.

Nas telas expostas no Maria Antonia é possível pensar também em memória. Memória não se alcança apenas com esforço. Não lembramos o livro inteiro, o filme todo, e nem a vida que passou. A experiência não pode ser revivida. Recorremos então à imaginação, criamos artifícios para lidar com isso, querendo reter o mundo. Com estes artifícios o trabalho se identifica. É possível pensar em silêncio, em surdez, e a pintura de Bruno seria como leitura labial: um artifício. No silêncio, o som como metáfora da memória, o assunto da impossibilidade. A ambivalência entre a experiência dada pelo mundo e a experiência dada pela linguagem é uma das inquietações presentes nesses trabalhos.

Há uma descrença na representação, o uso do monocromo como ponto de partida em quase todos os trabalhos reforça este aspecto. O monocromo pode ser interpretado como abismo, como morte, como o fim, como o todo; e nesse sentido também como um possível começo. A cor que une o conjunto de trabalhos tem muito a nos dizer. Bruno começa suas pinturas com um amarelo remédio, desagradável. Um desconforto. Não celebra, não tem a alegria do encontro, é melancólico, como a perda de algo que não sabemos bem o que é. Sobre essa superfície aparece a imagem, fantasmagórica e pálida; e um pedaço de pano pintado é também uma pele lisa, alisada por muitas camadas. Sensual e delicada também. Afinal, os conceitos adquirem aspectos sensíveis ao se tornarem pinturas.

Hiroshi Sugimoto, em sua série Theaters, fotografa filmes projetados em telas de cinema. O que estas fotografias retêm de toda sequência de imagens, de todo o tempo de duração do filme, da sua narrativa, é uma tela totalmente branca, apenas a luz, totalizadora. Aquilo foi um filme. Os trabalhos de Bruno têm uma carga parecida, talvez tudo fique branco.

Ana Prata

Consulte material bibliográfico sobre este artista na Biblioteca Gilda de Melo e Souza