ana linnemann

Cartoon · parte 2 (detalhes), 2012
técnica mista
dimensões variáveis

textos ciclo expo

ana linnemann
cartoon · parte 2

Referências a espaços mobiliados, às expectativas de funcionalidade em que eles habitualmente nos envolvem, são recorrentes no trabalho de Ana Linnemann. Uma cenotécnica simples, um quase artesanato do design é suficiente para evocar imagens genéricas de lugares conhecidos e ao mesmo tempo extremamente pessoais: um ateliê de artista, uma sala íntima, espaços de informalidade em que se “entra” para “se estar” e que parecem falar a fantasias de individualidade, autenticidade e leveza.

O acesso a esses espaços, todavia, só se dá de modo vago e refratado na obra de Ana. Ficamos sem saber, afinal, a quem diz respeito essa familiaridade, já que tudo se passa como se estivéssemos flagrando uma cena doméstica onde cada detalhe se revela responsivo a um uso, onde os objetos declaram-se adequados à presença uns dos outros – exceto à nossa. A familiaridade, logo percebemos, era efeito de um desenho meticuloso, e o idílio de privacidade, com seus fluxos de acontecimentos e afetos (o tato sugerido pela pressão dos feltros sobre as pérolas, o compasso do tempo na planta e no relógio), se revelaria ditado pelo desdobrar geométrico de fileiras de prateleiras, mais ou menos obedecendo à necessidade de instar o visitante a uma área que, de outro modo, restaria legada à sua assepsia e homogeneidade. Aquilo que se declarava como a experiência de um espaço vivido, banhada em ideias de verossimilhança e espontaneidade, não tarda a assomar como resultado da mais pura exterioridade, um sem número de pequenos acasos e coincidências, nos quais a presença ou a ausência de dobradiças é o que decide o curso da narrativa.

São as estantes o elemento central desse trabalho: lugares em que se podem depositar coisas. Desde que estas atendam a limites dados pela própria funcionalidade do móvel, estantes admitem quaisquer coisas. Um apanhado de livros, um vaso de flores, um bibelô beuysiano. Uma conjunção aditiva basta para preenchê-las. Tudo residirá em atinar com o que adicionar a elas – nada recusam, são como a cera mole sobre a qual se imprimem os registros consentidos da memória. Mas, à diferença desse lugar complacente, as estantes da artista são só superfície a obedecerem a composição implacável de planos horizontais progredindo linearmente. A narrativa “interior” de espontaneidade e lirismo mostrará, a um olhar que retroceda, um cinetismo mediante o qual se esvaem todas as causalidades e associações favorecidas pela conveniência do hábito. A narrativa é falhada, ridiculariza causas, se compraz com efeitos. As estantes da artista são presididas pela subtração – com vida própria, dispensam nosso idílio.

Sônia Salzstein