anri sala


intervista, 1998
dvd
26 min


dammi i colori, 2003
dvd
14 min


dammi i colori, 2003
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14 min


dammi i colori, 2003
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14 min

textos ciclo expo

anri sala

A exposição do artista albanês Anri Sala é resultado de parceria do Centro Universitário Maria Antonia com a Fundação Joaquim Nabuco, no âmbito do projeto Política da Arte, iniciado por esta última em 2009. O projeto compreende a realização de mostras e um conjunto de ações reflexivas em torno da idéia de que, mais do que dar visibilidade a imagens, textos e idéias criados em outras partes, a arte tece e afirma, de modo irredutível a outro campo qualquer do conhecimento, a sua própria política.

Anri Sala nasceu em Tirana, capital da Albânia, em 1974, e vive entre Paris e Berlim. Fez seus estudos em Tirana e em Paris, e desde 1998 exibe sua obra – quase sempre filme ou vídeo – nas mais importantes exposições do mundo, entre as quais a Bienal de Veneza (1998 e 2003), a Bienal de Istambul (2003) e a Bienal de São Paulo (2002 e 2010). Embora os temas imediatos de seus trabalhos sejam diversos e não constituam um repertório de interesses fechado, muitos deles revolvem em torno do uso da linguagem para comunicar algo e do reconhecimento de que a linguagem mesma é por vezes opaca ao que se deseja dizer. Talvez por ter alcançado a idade adulta em um momento de mudanças extremas e rápidas na história de seu país, Anri Sala expõe, em seus trabalhos, um senso agudo do que é próprio de um tempo e de um lugar precisos e das dificuldades associadas a qualquer tentativa de traduzi-los em outros termos. Pondo em confronto e em tensão palavras e imagens, seus filmes e vídeos sugerem um mundo que busca um entendimento entre partes que com frequência não se pode obter. Nesta exposição são aproximados dois de seus mais celebrados trabalhos: Intervista e Dammi i colori.

Em Intervista (1998), Anri Sala exibe para sua mãe um filme achado ao acaso em sua casa, onde está registrada a participação dela em um congresso da juventude comunista albanesa, em meados da década de 1970, incluindo uma entrevista concedida aos órgãos de comunicação do regime então no poder. Diante do fato de que a trilha sonora do registro não mais existe e do fracasso em conseguir recuperá-la, o artista recorre a professores de uma escola de surdos-mudos, que, através de leitura labial, conseguem reconstituir o que sua mãe fala no filme, adicionando-lhe as legendas correspondentes. Confrontados com o que ela dizia em público vinte anos antes, Anri Sala e sua mãe estabelecem uma fascinante conversa que envolve memória, história, esperança, receio e, introduzindo tema recorrente em outros trabalhos do artista, a adequação de certos usos da linguagem perante um determinado contexto e sua absoluta impropriedade diante de outros.

Em Dammi i colori (2003), Anri Sala acompanha o então prefeito de Tirana, Edi Rama, – pintor e amigo antigo do artista – em um passeio de carro pela cidade, em que o gestor apresenta e comenta, com grande otimismo, o seu projeto de revitalização da capital albanesa: pintar planos coloridos geométricos nas fachadas cinzas e deterioradas dos blocos de apartamentos construídos durante o regime comunista. O filme é permeado de ambiguidades, situado entre a documentação interessada do projeto do prefeito e a sugestão, por meio somente da justaposição de sua fala e de cenas filmadas, do quão inadequada essa estratégia pode ser para lidar com os graves problemas arquitetônicos e urbanos de Tirana. Inadequação, contudo, que talvez seja extensiva também à arte e, reflexivamente, ao próprio filme de Anri Sala, que busca uma função no mundo que escape à estetização estéril a que por vezes a produção artística docilmente adere.

Moacir dos Anjos (curador)